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Desemprego, o fantasma que apavora os jovens

As estatísticas confirmam a realidade crua que a juventude desalentada encara no dia a dia. E não há festa nem baile - se permitidos fossem - que nos acalente

Texto: Dani Monteiro | Imagem: Nelson Almeida

Na pandemia, desemprego atinge mais os jovens

Foto: An unemployed man reads announcements of job offers in downtown Sao Paulo, Brazil on January 31, 2017. - Brazil's unemployment rate hit 12 percent between October and December, another record high, official data showed Tuesday even as the economy is forecast to slowly exit deep recession. (Photo by NELSON ALMEIDA / AFP)

22 de março de 2021

A pandemia ameaça criar uma geração perdida de jovens: o desemprego já atinge 29,8% dessa parcela significativa da população brasileira, segundo os dados do IBGE sobre 2020. No ano em que o coronavírus nos encurralou, nós amargamos a maior taxa anual desde os distantes 2012. Está claro que a ameaça da covid-19 ampliou o drama, mas tem coisa muito errada nessa fita. Quando podemos ser criativos, produtivos e participativos, as oportunidades minguam e as portas se fecham. Não há recém-chegado que resista a tamanha indiferença por parte de quem deveria ofertar amparo e políticas de proteção efetivas. Precisamos falar sobre responsabilidades. E não se trata mais dos nossos pais.

As estatísticas confirmam a realidade crua que a juventude desalentada encara no dia a dia. E não há festa nem baile – se permitidos fossem – que nos acalente. Se falta trabalho, independentemente de gênero, na distribuição por cor, a cota de ocupação reservada aos pretos é ainda menor: 17,2%, acima da média nacional. Não é coincidência que esse vasto grupo que parte do país teima em ignorar esteja exatamente mais presente nas faixas de pobreza e extrema pobreza. Menos coincidência ainda é que esse vasto grupo seja exatamente o que habita grotões, favelas e periferias com maior frequência.

Em 2019, presidi a Comissão Especial da Juventude na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A tarefa era mapear as reais condições em que vivem os jovens fluminenses, conhecer as suas estratégias de formação e sobrevivência, descobrir dificuldades e iniciativas, ajudar a estabelecer conexões entre quem está à margem com as instituições que podem promover alguma mudança. Nas conversas que se desenrolaram pelo território fluminense, descobri sonhos de quem nasceu sem privilégios, formação e trabalho eram os principais entre todos.

Agora, a pandemia em escalada de casos e mortes deixa essa parcela da população em espera precária e sem perspectiva de ocupação que garanta um sustento digno: jovens artistas, jovens com curso técnico, jovens universitários, jovens com diploma, jovens sem curso algum, jovens sem profissão. Todos paralisados pelo descontrole de quem deveria nos dar o exemplo de como enfrentar crises, fornecer as ferramentas para superar a pior crise. De novo, não estou falando dos nossos pais.

O Plano Nacional de Educação (PNE) tem como meta levar 33% dos jovens de 18 a 24 anos ao ensino superior até 2024. Os jovens brancos ja chegaram lá, enquanto apenas 18% dos jovens negros ocupem uma vaga em universidade. Não à toa, além da formação escassa e da falta de ocupação, ou em consequência delas, o medo e o estresse assombram quem tem entre 18 e 30 anos, os últimos na fila da vacina contra a Covid-19, única esperança nesse pandemônio em que pretos e pardos são as maiores vítimas. A fila não anda, as doses não chegam, o governo não dá qualquer satisfação.

O que será que será se o desamparo às juventudes não saltar aos olhos de quem precisa enxergar? Vamos mesmo correr o risco de perdê-las? Desalento também mata. O peso na consciência depois, acreditem os que tirarem o pé nesse momento de maior necessidade de mãos dadas por alternativas, não paga. Que venha o exemplo de que é mesmo possível cumprir a meta de amadurecer sem perder a ternura.

Dani Monteiro é deputada estadual do Rio de Janeiro pelo PSOL e é presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Alerj.

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