Por: Leilane Menezes Rodrigues
Uma promessa antiga ecoa em setores dos movimentos por direitos humanos: a de que expor a brutalidade da violência racial em imagens forçaria o mundo a mudar. Ao testemunhar a dor, seria impossível não agir. Fotografias de linchamentos no passado e, mais recentemente, vídeos de pessoas negras sendo brutalizadas em diversos contextos mobilizam protestos e impactam a sociedade.
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Um dos exemplos mais poderosos, o vídeo dos últimos momentos de George Floyd incendiou a presença do movimento Black Lives Matter nas ruas dos Estados Unidos e do mundo em 2020. Cinco anos após a suposta comoção global, o número de pessoas negras mortas pela polícia, no entanto, só aumenta. Nos Estados Unidos, em 2024, policiais mataram 1.226 pessoas, segundo levantamento do New York Times.
No Brasil, onde negros têm quatro vezes mais chance de serem mortos pela polícia, a promessa de que flagrantes documentados de violência racial provocariam uma comoção capaz de abalar estruturas seculares soa cada vez mais como uma falácia cruel. As cenas brutais da mais recente chacina financiada pelo Estado no Rio de Janeiro – a maior da história com mais de 130 pessoas assassinadas nos complexos do Alemão e da Penha – viralizaram e se somaram ao arquivo macabro do que o ativista Raull Santiago chamou de “a história de terror do Brasil”. É mais um capítulo sangrento em um álbum de horrores que se estende por séculos, com cobertura midiática sensacionalista desde as primeiras revistas ilustradas do Brasil no século XIX. São memórias visuais que vão da escravidão aos linchamentos, dos jornais policialescos aos stories do Instagram.
A banalização do sofrimento
Uma hipótese dolorosa é a de que a circulação em massa dessas cenas pode produzir o efeito oposto à conscientização, termo que, no sentido usado por Paulo Freire, representa um processo de tomada de consciência crítica da realidade social, política e econômica, que leva à ação transformadora. Longe de sempre chocar e transformar, as imagens repetidas massivamente e sem contexto podem banalizar o sofrimento, normalizar a barbárie, reforçar estruturas racistas e até entreter um setor da população.
A reação de parte da sociedade diante das imagens da maior chacina da história do Brasil foi celebratória. “Tenho as fotos [dos corpos] caso alguém queira ver”, comentou uma leitora no perfil do Instagram do Portal Metrópoles. Outro respondeu: “Vi as imagens e foi tão satisfatório”. São imagens e mais imagens de pessoas negras sem vida, sem revolução. O que se vê é a transformação da dor negra em espetáculo digital, consumido e compartilhado em escala global, sem que as estruturas de poder que produzem essa violência sejam de fato abaladas.
O peso de testemunhar
Se, de um lado, há quem trate essas imagens como uma espécie de pornografia da dor, do outro, há uma população retraumatizada. Em um ambiente virtual violento, pessoas negras brasileiras entrevistadas em estudo ainda inédito nos Estados Unidos, apoiado pela American Association of University Women (AAUW), relatam experimentar solidão, desamparo, desesperança no futuro e a sensação de que seus corpos não são dignos de luto.
Um dos participantes, um homem preto que trabalha diretamente com movimentos sociais por justiça racial, descreve como o consumo massivo de imagens violentas o afeta, adicionando uma camada extra ao sofrimento cotidiano: “Nossa carne é devorada e serve como sustento para a supremacia branca. Nossa dor alimenta o mundo. Sinto que meus dias são consumidos pela violência, seja a mais direta das balas e expulsões, ou a completa incapacidade dos órgãos públicos de lidar com tais situações. Assim, parece-me que estou desenvolvendo a habilidade de ser um coveiro amador, já que testemunhar assassinatos, intimidações, casas incendiadas e todos os tipos de destruição faz parte da minha rotina diária.”
Entre a denúncia e a revitimização
Os depoimentos mostram como o trauma ressoa entre corpos racializados e descrevem como a violência ecoa em processo histórico em um país marcado por séculos de colonialismo, escravidão e desigualdades. Os participantes demonstram sentimentos ambíguos em relação ao papel das imagens: ora reconhecem-as como catalisadoras da justiça social, ora como ferramentas de manutenção da supremacia branca, mas eles sempre voltam ao trauma da exposição.
Para os entrevistados, as imagens de violência racializada nas redes sociais disparam um choque entre passado e presente, conectando as formas atuais de violência ao que a pesquisadora Nicole Maurantonio classificou como “rituais históricos de trauma corporal” – escravidão, linchamentos e outras violências de Estado. Uma das participantes, uma assistente social preta de 26 anos, cita uma canção do rapper mineiro Djonga, para ilustrar seus sentimentos diante de imagens de violência racial nas redes sociais:
Olho corpos negros no chão
Me sinto olhando o espelho
corpos negros no trono
Me Sinto olhando espelho
Olho corpos negros no chão
Me sinto olhando o espelho
Que corpos negros nunca mais se manchem de vermelho
Em meio ao trauma, rejeitar imagens violentas é uma estratégia de redução de danos. Enquanto moradores de favelas violentadas pelo Estado enfrentam fisicamente a realidade sangrenta da violência, a possibilidade de não se revitimizar ao consumir imagens de corpos negros brutalizados nas redes sociais é um privilégio raro.
Recusar-se a assistir ao loop incessante de violência explícita – uma prática que se assemelha ao conceito de “recusa informada”, cunhado pela pesquisadora Ruha Benjamin – costuma ser interpretado, de forma equivocada, como indiferença. Na verdade, para muitas pessoas, sobretudo as que se veem refletidas diretamente nas vítimas, consumir esse conteúdo significa reviver um trauma coletivo e adoecer. Longe de ser uma fuga, a escolha de não ver a mesma imagem dezenas de vezes é um exercício consciente de autodefesa e preservação da saúde mental.
Pesquisas já demonstram que a exposição a imagens de violência racializada eleva níveis de ansiedade e depressão, fenômeno agravado pelo tempo gasto nas redes sociais. É uma sobrecarga traumática, um luto incessante que ressoa a cada geração. A filósofa Christina Sharpe oferece uma reflexão crucial: “O espetáculo não é reparação”. A luta por justiça não pode ser condicionada ao cansaço emocional e à retraumatização de um grupo já historicamente violentado.
Redes sociais como “espaços da morte”
Neste cenário, as redes sociais podem ser compreendidas como espaços simbólicos de morte, onde a violência é usada para criar e reforçar hegemonias, como a supremacia branca. Como explica o antropólogo Michael Taussig, “o espaço da morte é crucial para a criação de significado e consciência, especialmente em sociedades onde a tortura é endêmica e onde a cultura do terror floresce”.
É precisamente neste terreno que as plataformas digitais se tornam um palco tão morbido quanto lucrativo para a espetacularização do sofrimento, atualizando um repertório histórico e macabro de violência midiática. Em 2021, uma ex-funcionária do Facebook, Frances Haugen, tornou públicas pesquisas internas da plataforma que mostravam como algoritmos promoviam ativamente conteúdo violento em busca de engajamento. A empresa sabia que seus sistemas estavam amplificando danos, mas foi lenta para fazer mudanças fundamentais.
Em 2017, grandes anunciantes retiraram seus investimentos do YouTube após descobrir que seus anúncios estavam sendo exibidos junto a conteúdo extremista e ofensivo. Isso forçou o YouTube a melhorar suas políticas de moderação e desmonetização, mas o problema central de incentivo permanece. A viralização do horror não é sinônimo de conscientização ou mera representação da realidade. A escolha pessoal de (ao menos tentar) limitar o consumo de imagens violentas, quando possível, não é covardia. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência em um mundo que insiste em exibir o corpo negro brutalizado como a única possibilidade inevitável de presente e futuro.
Leilane Menezes Rodrigues é doutora em Mídia e Informação pela Michigan State University (EUA) e especialista em imagens de violência racial e representações midiáticas. Atua como professora assistente na Suffolk University, em Boston (MA). Com trajetória no jornalismo desde 2008, Rodrigues integrou as redações de veículos de como Metrópoles e Correio Braziliense. Ao longo de sua carreira, recebeu 13 prêmios jornalísticos, a maioria com foco em direitos humanos — incluindo um reconhecimento da Cruz Vermelha na América Latina e o prêmio da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP).