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Você sabe o que é macumba? 

Macumba é, ao  mesmo tempo, aquilo que o colonialismo tentou domesticar por meio da caricatura e  aquilo que escapou continuamente a esse enquadramento
Divulgação/Tiago Torres

— Divulgação/Tiago Torres

6 de dezembro de 2025

O português falado no Brasil, embora carregue o mesmo nome da língua europeia,  é resultado de um processo histórico inegociavelmente distinto. Sua formação se dá nas encruzilhadas atlânticas, no contato e no conflito com múltiplos troncos linguísticos indígenas e, sobretudo, com as línguas africanas trazidas pelos povos bantus. Como nos lembra Lélia Gonzalez, essa miscigenação forçada e violenta forjou um idioma próprio, o pretoguês, expressão viva da africanização da língua que se fala no cotidiano brasileiro. 

Dessa forma, faz-se crer indissociável a relação entre a língua que se forja em solo brasileiro e seus atravessamentos culturais fortemente influenciados pela cultura centro africana. 

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Terreiros, quilombos, escolas de samba, rodas de capoeira e comunidades jongueiras são espaços de concentração e preservação da memória e da cultura afro-brasileira, guardando particularidades culturais e linguísticas próprias de seus territórios. No caso dos terreiros, a palavra macumba tornou-se, ao longo do tempo, um rótulo usado para reduzir a complexidade dessas tradições a uma nomenclatura única e depreciativa. Frases como “chuta que é macumba” revelam a persistência de um imaginário racista que associa elementos afro-brasileiros ao lixo, ao indesejável ou ao perigoso. Assim, macumba foi convertida em signo pejorativo, operacionalizado historicamente para sustentar estereótipos que classificavam as tradições de terreiro como práticas  “inferiores”, de “baixo espiritismo”, “baixo curandeirismo” ou “suspeitas”. 

Essa generalização, marcada por preconceitos e pelo olhar colonial, reduzia a  complexidade dos cultos e contribuía para uniformizar práticas diversas sob um rótulo  simplificador. Com o tempo, porém, o próprio povo de terreiro ressignificou o termo, convertendo-o em afirmação identitária. Assim, ser “macumbeiro”, antes motivo de  estigma, passou a expressar pertencimento, orgulho e resistência cultural. Hoje, o termo “macumba” possui característica polissêmica, seja dentro ou fora do terreiro, comunica identidade individual e coletiva, ritos, oferendas, pontos cantados, cantigas e tantos outros significados por ele carregados. 

No uso contemporâneo, macumba pode igualmente designar o conjunto das religiões de matrizes africanas como Umbanda, Candomblé, Batuque, Terecô, Xambá,  Jarê, Tambor de Mina, Catimbó e tantas outras como forma de autodesignação que já não carrega o peso pejorativo que lhe fora imposto.

É relevante observar que o termo já figura em dicionários desde as primeiras décadas do século XX, como no “Novo Dicionário da Língua Portuguesa”, de Cândido  de Figueiredo (1926), e no “Aulete” (1958), onde aparece com diferentes acepções: culto afro-brasileiro, cerimônia ritual, feitiço ou instrumento musical. Esta última definição, aliás, tornou-se a mais difundida, a ponto de ser a primeira a surgir em mecanismos de  busca e consultas on-line. 

Dizer que macumba é um instrumento musical ou uma árvore não constitui, isoladamente, um erro. Contudo, tomar essas definições como centrais desloca o termo do contexto em que realmente opera. No uso social, cultural e religioso, ninguém recorre  ao termo para falar de instrumentos, árvores ou categorias botânicas. Insistir nessas  classificações funciona, muitas vezes, como estratégia de desvio: uma maneira de olhar  o problema sem enfrentá-lo. Ao reduzir macumba a “instrumento” ou “árvore”, tenta-se  explicar sua existência sem compreender o que ela representa na vida e na cultura do povo de terreiro. Assim, esvazia-se a potência política e simbólica do termo e evita-se encarar a violência semântica que historicamente recaiu sobre sua dimensão religiosa, cultural e racializada. 

Mas afinal… o que é macumba? A etimologia bantu, especialmente do quimbundo, aponta que a sílaba inicial “ma” funciona como marcador de plural, comum nas línguas desse tronco. No campo semântico, macumba está relacionada ao movimento ritual, à  gira, ao culto, à dinâmica do terreiro. Há ainda leituras que vinculam a palavra ao termo “cumba”, entendido como “poderoso”, feiticeiros, encantadores. Nesse caso, macumba  seria o espaço onde esses cumbas se reuniam, um coletivo de potências. Em ambos os  sentidos, permanece evidente que o termo guarda uma densidade histórica associada aos  povos bantus e às práticas de culto que se reorganizaram no Brasil. 

Esse movimento de ressignificação remete a outra discussão urgente: a  reinterpretação da expressão “magia negra”. Assim como macumba, o termo foi  capturado por leituras racistas que associavam a negritude ao mal, ao proibido ou ao  demoníaco. No entanto, se entendemos “magia” como manipulação ritual de elementos e  “negra” como marcador de identidade racial, torna-se evidente que sua conotação  negativa é produto do olhar do “outro”, colonial e cristianizado. Desta forma, uma releitura etimológica devolve à expressão sua dignidade: práticas de matrizes africanas podem ser compreendidas como magias negras no sentido de saberes negros, tecnologias  rituais negras, e não como projeções racistas e moralistas impostas de fora.

Considerar o termo macumba a partir desse horizonte histórico, linguístico e  cultural significa reconhecer também sua condição de signo ambivalente. Macumba é, ao  mesmo tempo, aquilo que o colonialismo tentou domesticar por meio da caricatura e  aquilo que escapou continuamente a esse enquadramento. É uma forma de expressão que ocupa as bordas do processo civilizatório e que, justamente por isso, tensiona e reinventa os limites desse processo. A macumba transita como corpo dissidente, atravessa fronteiras, desobedece expectativas coloniais e cria frestas onde se manifestam saberes  ancestrais

Compreender a palavra macumba é compreender o percurso de uma linguagem que resistiu a estigmas, atravessou disputas simbólicas e permaneceu como força criadora dentro das comunidades afro-brasileiras. É reconhecer que, nas encruzilhadas do Brasil, muitas palavras carregam histórias de violência, mas também guardam caminhos de reconstrução. E é justamente nessas encruzilhadas que a macumba segue reinventando o  mundo. 

Saravá!

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Sacerdote e Pai-de-Santo de Umbanda do Terreiro Aruanda, em São Paulo. Mestre em Ciência da Religião pela (PUC-SP) e doutorando em Ciências pela USP (FFLCH). Pesquisa o sincretismo nas religiões de matrizes africanas, sobretudo as sequelas provocadas nos terreiros de Umbanda. É autor do livro "Sincretismo na Umbanda - pactos e impactos na identidade dos povos de terreiro". Apresenta o podcast “Atina pra Isso!”, onde promove um mergulho em saberes tradicionais de terreiros e cultura afro-brasileira.

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