O português falado no Brasil, embora carregue o mesmo nome da língua europeia, é resultado de um processo histórico inegociavelmente distinto. Sua formação se dá nas encruzilhadas atlânticas, no contato e no conflito com múltiplos troncos linguísticos indígenas e, sobretudo, com as línguas africanas trazidas pelos povos bantus. Como nos lembra Lélia Gonzalez, essa miscigenação forçada e violenta forjou um idioma próprio, o pretoguês, expressão viva da africanização da língua que se fala no cotidiano brasileiro.
Dessa forma, faz-se crer indissociável a relação entre a língua que se forja em solo brasileiro e seus atravessamentos culturais fortemente influenciados pela cultura centro africana.
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Terreiros, quilombos, escolas de samba, rodas de capoeira e comunidades jongueiras são espaços de concentração e preservação da memória e da cultura afro-brasileira, guardando particularidades culturais e linguísticas próprias de seus territórios. No caso dos terreiros, a palavra macumba tornou-se, ao longo do tempo, um rótulo usado para reduzir a complexidade dessas tradições a uma nomenclatura única e depreciativa. Frases como “chuta que é macumba” revelam a persistência de um imaginário racista que associa elementos afro-brasileiros ao lixo, ao indesejável ou ao perigoso. Assim, macumba foi convertida em signo pejorativo, operacionalizado historicamente para sustentar estereótipos que classificavam as tradições de terreiro como práticas “inferiores”, de “baixo espiritismo”, “baixo curandeirismo” ou “suspeitas”.
Essa generalização, marcada por preconceitos e pelo olhar colonial, reduzia a complexidade dos cultos e contribuía para uniformizar práticas diversas sob um rótulo simplificador. Com o tempo, porém, o próprio povo de terreiro ressignificou o termo, convertendo-o em afirmação identitária. Assim, ser “macumbeiro”, antes motivo de estigma, passou a expressar pertencimento, orgulho e resistência cultural. Hoje, o termo “macumba” possui característica polissêmica, seja dentro ou fora do terreiro, comunica identidade individual e coletiva, ritos, oferendas, pontos cantados, cantigas e tantos outros significados por ele carregados.
No uso contemporâneo, macumba pode igualmente designar o conjunto das religiões de matrizes africanas como Umbanda, Candomblé, Batuque, Terecô, Xambá, Jarê, Tambor de Mina, Catimbó e tantas outras como forma de autodesignação que já não carrega o peso pejorativo que lhe fora imposto.
É relevante observar que o termo já figura em dicionários desde as primeiras décadas do século XX, como no “Novo Dicionário da Língua Portuguesa”, de Cândido de Figueiredo (1926), e no “Aulete” (1958), onde aparece com diferentes acepções: culto afro-brasileiro, cerimônia ritual, feitiço ou instrumento musical. Esta última definição, aliás, tornou-se a mais difundida, a ponto de ser a primeira a surgir em mecanismos de busca e consultas on-line.
Dizer que macumba é um instrumento musical ou uma árvore não constitui, isoladamente, um erro. Contudo, tomar essas definições como centrais desloca o termo do contexto em que realmente opera. No uso social, cultural e religioso, ninguém recorre ao termo para falar de instrumentos, árvores ou categorias botânicas. Insistir nessas classificações funciona, muitas vezes, como estratégia de desvio: uma maneira de olhar o problema sem enfrentá-lo. Ao reduzir macumba a “instrumento” ou “árvore”, tenta-se explicar sua existência sem compreender o que ela representa na vida e na cultura do povo de terreiro. Assim, esvazia-se a potência política e simbólica do termo e evita-se encarar a violência semântica que historicamente recaiu sobre sua dimensão religiosa, cultural e racializada.
Mas afinal… o que é macumba? A etimologia bantu, especialmente do quimbundo, aponta que a sílaba inicial “ma” funciona como marcador de plural, comum nas línguas desse tronco. No campo semântico, macumba está relacionada ao movimento ritual, à gira, ao culto, à dinâmica do terreiro. Há ainda leituras que vinculam a palavra ao termo “cumba”, entendido como “poderoso”, feiticeiros, encantadores. Nesse caso, macumba seria o espaço onde esses cumbas se reuniam, um coletivo de potências. Em ambos os sentidos, permanece evidente que o termo guarda uma densidade histórica associada aos povos bantus e às práticas de culto que se reorganizaram no Brasil.
Esse movimento de ressignificação remete a outra discussão urgente: a reinterpretação da expressão “magia negra”. Assim como macumba, o termo foi capturado por leituras racistas que associavam a negritude ao mal, ao proibido ou ao demoníaco. No entanto, se entendemos “magia” como manipulação ritual de elementos e “negra” como marcador de identidade racial, torna-se evidente que sua conotação negativa é produto do olhar do “outro”, colonial e cristianizado. Desta forma, uma releitura etimológica devolve à expressão sua dignidade: práticas de matrizes africanas podem ser compreendidas como magias negras no sentido de saberes negros, tecnologias rituais negras, e não como projeções racistas e moralistas impostas de fora.
Considerar o termo macumba a partir desse horizonte histórico, linguístico e cultural significa reconhecer também sua condição de signo ambivalente. Macumba é, ao mesmo tempo, aquilo que o colonialismo tentou domesticar por meio da caricatura e aquilo que escapou continuamente a esse enquadramento. É uma forma de expressão que ocupa as bordas do processo civilizatório e que, justamente por isso, tensiona e reinventa os limites desse processo. A macumba transita como corpo dissidente, atravessa fronteiras, desobedece expectativas coloniais e cria frestas onde se manifestam saberes ancestrais.
Compreender a palavra macumba é compreender o percurso de uma linguagem que resistiu a estigmas, atravessou disputas simbólicas e permaneceu como força criadora dentro das comunidades afro-brasileiras. É reconhecer que, nas encruzilhadas do Brasil, muitas palavras carregam histórias de violência, mas também guardam caminhos de reconstrução. E é justamente nessas encruzilhadas que a macumba segue reinventando o mundo.
Saravá!