Antes mesmo da sensação de final de ano chegar, a impressão é sempre a mesma: nem bem vivemos o ano e os panetones já anunciam o encerramento dele. Mas não são somente os alimentos que trazem consigo tais impressões. Nas vitrines de roupas, o tom se torna cada vez mais uniforme e a cor branca padroniza o vestuário para as festas de encerramento do ano. Mas você sabe de onde vem essa cultura? Da Umbanda.
Na década de 1950, no Rio de Janeiro, terreiros de Umbanda passaram a celebrar publicamente o dia 31 de dezembro nas praias, sobretudo em Copacabana. Essas celebrações marcavam o fechamento de um ciclo e a preparação para o tempo que se anunciava.
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O branco não era escolha estética ou tendência de moda. Era a mais objetiva manifestação cultural e código ritual das vestimentas da Umbanda. O nascimento desse movimento se deve a uma das figuras mais centrais da história da Umbanda no Brasil: Tancredo da Silva Pinto, conhecido como Tata Tancredo. Mais do que pai de santo, Tancredo foi articulador político, sambista, escritor, jornalista e uma liderança negra fundamental no Brasil do pós-abolição.
Não por acaso, ficou conhecido como o “Papa Negro da Umbanda”, título que expressa menos uma hierarquia religiosa formal e mais o reconhecimento de uma luta pela identidade cultural negra da Umbanda e de sua capacidade de organização, articulação pública e produção cultural.
Nascido em Cantagalo, no interior do estado do Rio de Janeiro, Tancredo trazia consigo as marcas profundas de uma formação atravessada pela experiência do pós-abolição e pela presença bantu que estrutura boa parte da Umbanda Omolokô, tradição religiosa da qual foi um dos maiores expoentes. Ao chegar ao Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX, ele se insere em territórios decisivos da vida cultural negra carioca, como o Estácio e o Morro de São Carlos, espaços onde samba, religiosidade, política e vida cotidiana se misturavam de forma indissociável. Não por acaso, essa centralidade histórica segue sendo reconhecida: a Estácio de Sá, uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, anunciou que levará à avenida, no Carnaval de 2026, um samba-enredo dedicado à trajetória de Tata Tancredo, reafirmando seu papel como personagem fundamental da cultura negra, do samba e da Umbanda no Brasil.
Essa presença de Tancredo no samba, na imprensa e nas ruas ajuda a compreender por que as celebrações de fim de ano associadas à Umbanda rapidamente extrapolaram o terreiro. A ida à praia no dia 31 de dezembro, o uso das roupas brancas e as homenagens a Yemanjá passam, já a partir das décadas seguintes, a ocupar as páginas dos jornais como um grande acontecimento urbano, tensionando permanentemente o limite entre rito religioso e espetáculo público.
Levar a Umbanda para a praia, portanto, não foi um gesto isolado nem folclórico. Foi coerente com uma trajetória marcada pela ocupação do espaço público. Tancredo entendia a Umbanda como cultura viva, urbana, atravessada pelas disputas do seu tempo. Ao realizar celebrações no dia 31 de dezembro nas areias de Copacabana, ele inscrevia o corpo negro, o corpo afroespiritual e o corpo popular no coração simbólico da cidade, em um período histórico no qual essas presenças já eram sistematicamente empurradas para a marginalidade.
A roupa branca, nesse contexto, operava como linguagem que, por meio da cor se inscrevia enquanto um marcador cultural que comunicava pertencimento, ética coletiva e preparação do corpo para atravessar o tempo-kalunga. O rito de passagem do ano novo, tal como formulado nos citados encontros de Umbanda, firmava fechamento e abertura das funções espirituais, anunciando não só descanso, mas também reorganização da memória e das expectativas para o ano seguinte. A praia se tornava, então, extensão do terreiro e o terreiro se expandia para a cidade em um rito onde a pisada dos Caboclos, Pombagiras, Pretos Velhos, Exús e todo o Povo da Rua se iluminava ao encontro do mar.
Esse mesmo Tancredo que organizava ritos públicos era também o sambista que dialogava com nomes centrais da música popular brasileira e o intelectual popular que escrevia em jornais de grande circulação. Sua atuação desmonta a ideia de que a Umbanda se restringe ao espaço privado ou doméstico. Ao contrário, ela se mostra profundamente conectada às dinâmicas políticas, culturais e sociais do Brasil urbano do século XX.
À medida que a festa cresce, cresce também a tentativa de controle. O que antes era rito passa a ser tratado como problema urbano ou atração turística.
O que acontece, com o passar do tempo, é um processo conhecido e recorrente: a prática se populariza e sua origem é silenciada. O Réveillon de Copacabana se transforma em espetáculo, produto turístico e calendário oficial da cidade. O gesto permanece, mas a Umbanda desaparece da narrativa. O branco vira moda e continua dominando. Pular ondas vira superstição. O rito da praia se transforma em cenário instagramável. E o terreiro, mais uma vez, é despachado para fora da história.
Reconhecer que vestir roupas brancas na virada do ano é uma prática criada nos fundamentos da Umbanda não é reivindicar exclusividade. É atinar à memória. É afirmar que a cultura brasileira não nasce do nada, tampouco de uma abstração chamada “tradição popular”. Ela nasce de corpos, territórios, conflitos e invenções negras que seguem sendo consumidas sem o devido reconhecimento. Aliás, boa parte do que se entende hoje como “cultura popular” é, na verdade, fruto de culturas originárias dos campos de batalhas como terreiros, escolas de samba, rodas de jongo, gingas de capoeiras, esquinas de macumbas e tantas outras expressões comuns ao povo negro.
Vestir branco, ir ao mar e pular ondas continua sendo, mesmo quando não se diz, um gesto atravessado pela Umbanda. Negar isso é repetir o mesmo movimento histórico que aceita o rito, mas rejeita a cultura; consome o gesto, toma-se a bênção, mas embranquece, apaga e silencia quem assentou o fundamento.
Salve a memória do povo de terreiro,
Salve os campos de batalha,
Saravá, 2026.