Quando me fiz, pela primeira vez, a pergunta “quem lucra quando a periferia cria?”, eu assistia a um show gravado do Grupo Fundo de Quintal e pensava: por que essas pessoas não estão milionárias? A pergunta não nasceu apenas como provocação. Ela surgiu como constatação. Uma constatação cada vez mais evidente de que a periferia produz cultura, movimenta o mercado, define tendências, mas não acumula riqueza na mesma proporção em que gera valor.
Quando propus essa pesquisa ao Centro de Estratégia e Regulação, o Reglab, pensei no sonho de tantos meninos que antes sonhavam em ser jogadores de futebol e hoje sonham em ser MCs e rappers, tendo de Racionais MC’s a Djonga como referências de mundo, linguagem e possibilidade.
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Nos últimos dias, esse debate ganhou novos, ou talvez velhos, contornos, quando artistas como Tati Quebra Barraco e Claudinho vieram a público denunciar a ausência de retorno financeiro sobre obras que marcaram gerações e continuam produzindo riqueza para outras pessoas. O que aparece nesses relatos não é exceção. É padrão.
Ao longo de quatro meses, tive o privilégio de ouvir artistas, produtores e pessoas envolvidas na cena. O que emergiu dessas conversas foi um diagnóstico duro, mas nítido: sim, a periferia dita o ritmo; não, ela não detém as chaves do cofre.
A partir de uma investigação introdutória sobre os mecanismos de monetização e gestão de direitos autorais nas plataformas digitais, e sobre como esses sistemas impactam a autonomia econômica de criadores periféricos, escrevi um ensaio que parte de uma constatação central: a inclusão cultural promovida pelas plataformas não se traduz, automaticamente, em inclusão econômica.
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Na prática, para quem cria na periferia, a vida financeira se organiza em dois regimes muito diferentes. De um lado, a renda ativa: shows, freelas, produção para terceiros, presença constante, disponibilidade total. É o trabalho que exige corpo, tempo e energia contínuos. É também o que, de fato, sustenta a vida.
Do outro lado, existe a renda patrimonial: aquela que deveria vir das obras já criadas, dos royalties, dos direitos autorais, da execução pública, do catálogo que continua circulando mesmo quando o artista para. Em tese, essa renda deveria garantir estabilidade. Na prática, ela é residual, instável e frequentemente insuficiente.
Barbara Fares, ou Neguinha Braba, rapper da Baixada e uma das pessoas que ouvi, foi direta ao nomear esse impasse: “Tem muita gente talentosa na periferia, mas o sistema não é feito pra gente acumular. É feito pra gente produzir e continuar com a sensação de que estamos sempre começando do zero.” Nayra Lays, cantora de R&B, foi igualmente incisiva: “A música é a indústria que mais gira dinheiro, mas esse dinheiro não vai pra mão do artista. Então vai pra mão de quem?”
Essas falas ajudam a iluminar um problema estrutural. O descolamento entre criação e remuneração não é falha ocasional. Ele mantém ativo um sistema em que a precariedade não é desvio, mas motor. A pobreza e a instabilidade funcionam como engrenagens de uma cadeia que depende da criatividade periférica, mas bloqueia sua conversão em patrimônio.
Os relatórios de monetização chegam aos artistas como códigos indecifráveis. São números que pouco explicam sobre como se transformam em valores pagos. Falta transparência sobre critérios, cálculos e fluxos de distribuição. Falta inteligibilidade. Falta, sobretudo, poder de negociação.
Sem assessoria técnica e jurídica, muitos criadores são empurrados para perdas constantes, contratos mal compreendidos e longas cadeias de intermediação que dissolvem o pouco valor gerado antes que ele chegue, de fato, a quem criou a obra.
O que se consolida, então, é um modelo de trabalho sustentado pela expectativa. O artista cria, circula, engaja, cresce em visibilidade, mas o retorno financeiro é sempre adiado para um futuro que raramente se materializa. É o que parte da literatura internacional chama de hope labor: o trabalho movido pela esperança de que, em algum momento, o reconhecimento simbólico se converta em renda concreta.
Sob uma lógica de sobrevivência, e não de construção de carreira, a chamada creator economy, tão celebrada como vetor de oportunidade, revela seu limite. Ela amplia visibilidade, mas não redistribui valor. O mercado depende da inovação cultural produzida nas margens, mas preserva os mecanismos de acumulação no centro.
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Por isso, falando a institutos, festivais, plataformas e redes, a resposta não pode ser apenas dar visibilidade. Visibilidade sem estrutura pode ser só uma forma mais sofisticada de extração.
O desafio real é garantir condições para que circulação vire patrimônio, audiência vire ativo e criação vire base econômica. Isso exige tradução de sistemas, fortalecimento técnico, proteção jurídica e reposicionamento do criador não apenas como produtor de conteúdo, mas como agente econômico.
A pergunta que orienta esta reflexão, portanto, segue aberta e incômoda: se a periferia cria, por que ela ainda permanece à margem?