Emblemática a imagem das manifestações de 21 de setembro, na Avenida Paulista, em São Paulo, quando vimos uma imensa bandeira brasileira tremular no ato progressista, de repúdio à PEC da Blindagem e à anistia para os golpistas de 8 de janeiro. A gigantesca verde e amarela foi saudada como que num resgate de refém. Ao lado dela, quase tão grandiosa, outra bandeira, em preto e branco, trazia a inscrição: “Pela vida do povo negro”. Esta, assinada pela maior articulação de movimentos negros do país, a Coalizão Negra por Direitos. Ignorada nas análises, uma leitura semiótica soa historicamente provocativa. A pergunta inevitável é: resgate da bandeira nacional? Resgatar de quem, por quem, e para quem?
A bandeira do Brasil nasceu em 1822 como pacto entre famílias reais: verde da Casa de Bragança, amarela da Casa de Habsburgo. Não nasceu da luta popular, mas de arranjos dinásticos. Quando a República foi proclamada, em 1889, um ano apenas após a Lei Áurea, os positivistas reciclaram essa herança e acrescentaram o lema de Auguste Comte: “Ordem e Progresso”. Desde então, o símbolo nunca foi neutro, muito menos popular. Ele sempre esteve a serviço de uma ordem que exclui e reprime, e de um progresso que nunca chegou para a maioria.
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Há quem diga que Bolsonaro e a extrema-direita sequestraram a bandeira nos últimos anos. É verdade, mas a questão é mais profunda. Antes de Bolsonaro, quando foi que a bandeira representou justiça social, igualdade racial ou democracia real? Na ditadura militar, o verde-amarelo significava silêncio e obediência: “Ame-o ou deixe-o”. Em 1989, Collor vestiu a bandeira para travestir seu projeto neoliberal de moralismo anticomunista. No futebol, a camisa da seleção e a bandeira sempre foram misturadas num espetáculo que vende brasilidade ao mundo, mas nunca simbolizou direitos.
Essa bandeira nunca foi nossa. Nunca significou democracia para negros, indígenas ou pobres. Nunca foi emblema de liberdade. O Brasil jamais viveu democracia plena, apenas ordem oligárquica e privilégios. A democracia racial se fez mito para esconder a violência. A ordem social brasileira sempre funcionou como engrenagem da superexploração negra. Se é assim, de que resgate estamos falando?
O problema é que parte da esquerda insiste em repetir a narrativa confortável de que é preciso “retomar a bandeira”. Como se em algum momento ela tivesse sido nossa. É o mesmo engano de quem fala em “retomar a democracia”, ignorando que a maioria esmagadora do povo nunca a experimentou de fato. Democracia formal, sim. Democracia substantiva, jamais.
Isso não significa que devamos entregar a bandeira à extrema direita. Mas disputar seu sentido exige coragem crítica. É preciso dizer com todas as letras: essa bandeira não nos representou. Não nos protegeu. Não simbolizou o nosso povo. Se for para ressignificá-la, que seja de verdade: não com cosmética patriótica, mas com novos pactos que incluam reparação histórica, justiça racial e democracia substantiva.
E talvez a verdadeira bandeira que já aponta para o Brasil do futuro seja justamente aquela erguida em preto e branco: “Pela vida do povo negro”. Ela não nasceu de pactos entre coroas, oligarquias ou estratégias de marketing da esquerda branca para suas redes sociais, mas da luta de quem sempre foi excluído. Não encobre desigualdades com ufanismo, mas afirma a vida como valor absoluto.
O desafio não é resgatar um símbolo antigo. É inventar um novo Brasil. E com esse novo Brasil, quem sabe um novo campo progressista, que não repita seus vícios elitistas e racistas, que não mantenham sua hegemonia via controle das estruturas partidárias, sindicais ou de mandatos que apenas investem em si próprios e se retroalimentam em suas tradições políticas e ideológicas brancas, ricas, acadêmicas, oligárquicas. Um Brasil onde a bandeira carregue um sentido de vida digna para o povo negro, para os povos indígenas, para a maioria trabalhadora deste país.
Até lá, o verde-amarelo continuará carregando mais passado de opressão do que futuro de justiça.
Em tempo: Os movimentos negros representados pela bandeira alvi-negra na foto, não tiveram direito de falar no ato dos progressistas paulistanos.
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