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Sankofa fotográfico: o futuro do arquivo negro como imagem, documento e livro

Produção fotografica de Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, sobre a história do movimento social negro de Salvador, vira exposição e livro
Jorge do Espírito Santo, pesquisador, na primeira sede do Zumví, na igreja da Penha, Salvador, BA, 1990. Fotografia em gelatina de prata a partir de negativo em 35 mm.

Jorge do Espírito Santo, pesquisador, na primeira sede do Zumví, na igreja da Penha, Salvador, BA, 1990. Fotografia em gelatina de prata a partir de negativo em 35 mm.

— Lázaro Roberto/Arquivo Zumví

10 de abril de 2026

Uma foto é sempre o recorte de um momento a partir de um olhar, uma perspectiva única de quem a captura. Elas podem repousar por anos em um filme nunca revelado, podem ser instantaneamente compartilhadas nas redes sociais ou, talvez, nunca encontrar uma função para além do instante do registro. Mas a fotografia também pode ajudar a construir um futuro e, como ensina o Adinkra Sankofa, o futuro depende do passado.

Sem essa pretensão inicial, Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro começaram a registrar, por meio de suas lentes analógicas, a história do movimento social negro de Salvador. Agora, sob a curadoria de Hélio Menezes (com assistência de Ariana Nuala, consultoria de Elson Rabelo e pesquisa de Vilma Neres), esse trabalho ganha corpo e perenidade ao chegar ao Instituto Moreira Salles (IMS), em São Paulo, em formato de exposição e, fundamentalmente, de livro.

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Durante a coletiva de imprensa realizada na sede do IMS, dias antes da abertura da mostra, Lázaro Roberto contou que sentiu, simplesmente, a necessidade de catalogar as imagens que produzia. Ele envolvia os negativos em papel-manteiga, junto às pequenas provas de impressão, e anotava em papel ofício as informações essenciais daquelas imagens. Esse método artesanal de preservação foi o embrião do que hoje é um dos principais acervos imagéticos da história da comunidade negra brasileira: o Zumví.

Essa transição do papel ofício para o livro-catálogo carrega um peso institucional e histórico. Segundo Samuel Titan Jr., coordenador editorial do IMS, a produção dessas publicações é quase uma regra na instituição, movida pelo desejo de formar uma “memória gráfica da fotografia brasileira”.

Para Samuel, embora o público imediato sejam os visitantes das exposições, esses catálogos servem a um público futuro: “há muita coisa, na história da fotografia brasileira e na própria coleção do IMS, que nunca foi publicada/impressa como merece”, pontua.

No caso específico do Zumví, a documentação em livro assume um caráter de reparação e urgência. Samuel Titan Jr. observa que, se a fotografia brasileira de forma geral ainda tem muitos tesouros escondidos, essa realidade é ainda mais drástica quando falamos de acervos da diáspora.

Para ele, o raciocínio da publicação “vale ainda com mais força e urgência para um arquivo negro de Salvador. Se, olhando para o todo, a fotografia brasileira ainda tem muita coisa ‘na gaveta’, esperando para ser publicada, comentada, vista, contemplada etc. – bem, isso vale em medida muito aguda para um arquivo como o Zumví”.

Ao me responder sobre qual o recado e a entrega que esta exposição traz para o mundo, o curador Hélio Menezes é categórico: “há uma disputa de narrativa e imagética”. Para Hélio, Lázaro “fotografou o arquivo para o futuro” e o que vemos agora é a realização desse plano. “Um pedaço desse futuro que Lázaro idealizou chegou; um modo de recalibrar o olhar sobre arquivos negros”, afirma o curador.

Publicar o Zumví é, portanto, um ato de abrir gavetas que o racismo tentou manter trancadas. É garantir que o olhar de Lázaro e seus companheiros — um olhar de dentro para fora — não apenas seja visto agora, mas que permaneça como documento inquestionável para as gerações que virão.

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Zumví: Arquivo Afro Fotográfico

O Instituto Moreira Salles (IMS Paulista) apresenta, até o dia 23 de agosto de 2026, a exposição “Zumví: Arquivo Afro Fotográfico”. Inaugurada em 28 de março, a mostra reúne cerca de 400 fotografias, além de documentos, cartas e um filme documental, oferecendo um mergulho profundo na experiência negra a partir de quem a vive e a registra.

Sob a curadoria de Hélio Menezes, com assistência de Ariana Nuala, consultoria de Elson Rabelo e pesquisa de Vilma Neres, a mostra está organizada em 16 temáticas fotográficas. O percurso atravessa desde a vibração estética dos blocos afro e afoxés até a intimidade das festas populares, mercados, cenas de religiosidade e a vida em territórios quilombolas. 

O Zumví nasceu em Salvador, no ano de 1990, fruto da visão dos fotógrafos Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro. Em um período em que a população negra raramente ocupava o lugar de sujeito por trás das lentes. 

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Serviço

Exposição: Zumví: Arquivo Afro Fotográfico

Data: até 23 de agosto de 2026. 

Local: Instituto Moreira Salles – IMS Paulista, localizado na Avenida Paulista, 2424, em São Paulo (SP). O espaço funciona de terça a domingo e feriados, das 10h às 20h.

Preço: Grátis. 

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Jornalista e escritora, atuando na imprensa negra desde 1996. Autora de "Negra Percepção: Sobre Mim e Nós na Pandemia", escreve sobre literatura, memória e experiência negra, articulando crítica cultural, política e trajetória pessoal. Também atua como consultora em planejamento estratégico e comunicação. Nesta coluna na Alma Preta, compartilha leituras e reflexões que ajudam a pensar o Brasil a partir da palavra escrita.

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