Esta não é uma reportagem comum. Você, leitor, vai perceber que não citarei nomes neste texto. Não haverá entrevistas, como costumamos dizer no jornalismo, “em on” ou “em off”.
Voltei à Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, zona norte do Rio de Janeiro, dois dias depois das cenas de horror que chocaram o país — a maior chacina policial da história do Brasil.
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A chamada “Operação Contenção” — e coloco entre aspas porque tenho minhas dúvidas se algo que deixou ao menos 120 mortos (incluindo quatro policiais) e três civis feridos pode ser classificado como uma operação policial — foi comandada pelo governador Cláudio Castro (PL-RJ) e contou com a mobilização da Polícia Militar, da Polícia Civil, da Secretaria de Administração Penitenciária (SEAP) e, estranhamente, até do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, via o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO).
Uma operação, afinal, pressupõe estratégia e inteligência tática — e o objetivo de causar o menor número possível de danos colaterais.
Antes de chegar ao local, imaginei que seria fácil ouvir relatos da população. Passei a tarde tentando entrevistar os moradores da Vila Cruzeiro para entender, para além da chacina e das imagens brutais que testemunhei, como a “operação” impactou o cotidiano da comunidade. Mas, depois de horas tentando, desisti de gravar qualquer coisa. Ninguém quis falar — nem em vídeo, nem em áudio, nem por mensagem.
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Em conversas mais espontâneas, os moradores me contaram que aqueles poucos que apareceram na imprensa mostrando o rosto e dizendo o nome vêm sofrendo ameaças de morte, enviadas por perfis falsos nas redes sociais.
Dois dias após o massacre, o clima ainda é de tensão. A maioria dos comércios permanece fechada, sem energia elétrica. Uma vendedora de açaí me contou que perdeu todos os produtos — tudo descongelou. O dono de um mini mercado relatou o mesmo: prejuízo com produtos estragados e dois dias de portas fechadas, como quase todos os comerciantes da região.
As unidades de saúde continuam sem funcionar. O mesmo acontece com creches e escolas. Ouvi de uma menina de oito anos: “eu deveria estar na escola, mas a polícia não deixou”.
Um morador me mostrou um copo plástico cheio de cápsulas — cerca de vinte balas de fuzil recolhidas do chão no dia anterior. Perguntei se podia tirar uma foto. Ele respondeu, assustado: “de jeito nenhum”. Aos poucos, fui entendendo: o medo de represálias da polícia calou a comunidade.
Depois de algumas horas, desanimada com a pauta que não saiu como eu esperava, peguei um mototáxi para ir embora. No caminho, puxei conversa com o piloto — que também preferiu não se identificar. Foi ele quem resumiu da melhor forma o clima atual na Vila Cruzeiro: “Depois de uma operação, a lei do silêncio prevalece.”