A primeira vez que Ana Maria Gonçalves vestiu o “fardão” de uma academia de letras foi no Carnaval do Rio. Em 2022, à frente de um carro da Beija-Flor de Nilópolis que coroava Conceição Evaristo, Ana Maria veio, junto a outros escritores, imortalizada na Academia Negra de Letras.
Dois anos depois, Ana Maria atravessou a Marquês de Sapucaí como principal homenageada: em 2024, a Portela carnavalizou “Um Defeito de Cor”, livro finalizado por ela aos 34 anos, eleito o melhor do século 21 pela Folha de S. Paulo e presente em quase todas as listas de “livros imperdíveis sobre o Brasil”.
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Nesta sexta-feira (7), as profecias carnavalescas serão cumpridas: Ana Maria Gonçalves assume uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Será a primeira mulher negra entre as 13 que já passaram pela casa e a 6ª da atual composição.
“Não passava pela minha cabeça sequer me candidatar ou ser eleita até três meses antes [da candidatura]. Foi muito no susto. Eu não achava que era um lugar para a gente”, relembra Ana Maria.
Em conversa exclusiva com a Alma Preta, Ana Maria revela que essa percepção vem mudando aos poucos, não sem um empurrãozinho. Na cerimônia de posse marcada para às 20h, Ana Maria levará consigo muito da cultura negra.
Pela primeira vez, a roupa de uma imortal da Academia Brasileira de Letras foi confeccionada por profissionais de uma escola de samba, a Portela. Pela primeira vez, essa roupa está sendo revelada em um veículo de jornalismo preto.
E não para: será a primeira vez que uma cerimônia de posse terá um bufê de culinária africana, comandado pela chef Dida Nascimento. Além do after em uma casa de cultura negra, com baile de música black (Dom Filó) e bateria de escola de samba. São, de fato, muitas primeiras vezes para uma noite só. E Ana Maria tem a expectativa de que seja a primeira de todas.
“Não me interessa mais falar de representatividade. A gente tem que começar a falar em construir presença. Em algum momento foi importante a questão da representatividade, ocupar espaços onde a gente nunca chegou. Mas eu acho que já tá no momento de estarmos presentes.”
Antes com um “pé atrás” com a Academia (pela não eleição de Conceição Evaristo, em 2018), Ana Maria hoje acredita que os imortais têm se aberto mais à diversidade. Por isso, é importante estar ali, onde, revela, tem sido muito bem recepcionada.
“Todo esse ritual [de posse] trabalha muito para colocar a literatura num pedestal que parece ser inalcançável para muita gente. Então eu vou trabalhar por uma popularização da ABL, para ser uma casa do povo, uma casa da língua que está sendo construída nas ruas e levar outros tipos de linguagem.”
Ana Maria cita o professor Evanildo Bechara, a quem substitui na ABL. “Ele tem uma frase que eu estou usando: ‘precisamos ser poliglotas na própria língua’. E é exatamente isso: para falar sua língua, tem que falar as várias vertentes e protegê-las. É uma vontade levá-las lá para dentro, porque são parte da comunicação que a gente, povo preto, faz”, explica.

Infinitas possibilidades
Levando todos esses expoentes da cultura negra, Ana acredita que pode começar um movimento de questionar muitos processos já estabelecidos dentro da ABL, como o próprio custo financeiro de tudo que envolve uma candidatura, posse e ocupação de cadeira.
“Até pouco tempo atrás, tinha um monopólio na produção do fardão, com um preço que o escritor não pode pagar. Então tirar o que não podemos pagar com o nosso salário e com a nossa vivência de escritor também é um movimento político. E eu adoraria que, a partir de agora, cada um levasse para sua escola de samba ou para sua costureira de bairro fazer, para ser de acordo com as nossas possibilidades.”
Houve um tempo em que o fardão da ABL era produzido com fios de ouro e custava dezenas de milhares de reais. O modelo que será utilizado por Ana Maria em sua posse foi feito a partir do croqui do vestido utilizado por Rachel de Queiroz, primeira mulher na ABL, em 1977. Os louros dourados e a cor verde estão mantidos.
O carnavalesco da Portela, André Rodrigues, que em dupla com Antônio Gonzaga levou “Um Defeito de Cor” para o Carnaval ano passado, coordenou a confecção pelos profissionais do barracão da escola de samba. São eles: João Vitor Lacombe, 44, costureiro, Carolina Bomfim, 44, assistente de costura, junto a Raayane Costa, 35, e Anthony Albuquerque, 29, responsáveis pelo bordado.
“É valorizar o trabalho de pessoas dentro de uma escola de samba, porque estão produzindo moda, design e material de alta qualidade. E, muitas vezes, por estar dentro de um movimento popular como o Carnaval não são valorizados. Eu quero mostrar que é possível, que tem qualidade mais do que suficiente para estar em todos os lugares.”
A proximidade com a Portela ao longo dos últimos dois anos se deve também ao fato de, com o desfile, a escritora ter alcançado marcas inéditas. Na noite em que o livro passou pela Avenida, foram vendidas cinco vezes mais cópias do que o usual para um mês inteiro e duas edições esgotaram. E nunca mais as vendas voltaram aos índices pré-desfile.
“Também escolhi fazer [meu vestido] numa escola de samba porque entendo a importância cultural e pedagógica. A Portela levou o livro a um outro patamar de conhecimento e de vendas, que nenhum evento literário foi capaz de fazer. É uma quantidade imensa de leitores que falam que conheceram o livro por causa da Portela”, explica.

Memória
“Um Defeito de Cor” narra a vida de Kehinde, sequestrada no continente africano e trazida ao Brasil para ser escravizada. Ao longo de quase mil páginas, escritas ao longo de cinco anos, Ana Maria detalha todas as etapas da vida daquela mulher ao mesmo tempo em que devolve à população negra do Brasil informações, memórias perdidas e a possibilidade de reconhecer um pouco da própria história.
O livro, portanto, produz uma memória afetiva e histórica arrancada do povo negro. Agora, como imortal da ABL, Ana Maria se vê em outro lugar: pessoas fotografando, escrevendo, arquivando e perguntando para construir um acervo de memórias sobre ela.
“Minha ficha ainda não caiu nesse sentido. Eu estou espantada que agora tudo é documento, mas, para mim, é só minha vida. Ter a vida documentada e tudo que eu produzi ser arquivo e estar na ABL para as pessoas consultarem daqui a uns anos ainda me causa um espanto”, avalia.
Ao mesmo tempo, Ana Maria reconhece a importância, diante de registros que causaram o apagamento da identidade e intelectualidade negras.
“Essa coisa da gente ter nossos documentos e construir memória é muito raro ainda. Entre os documentos da ABL, tem a certidão de nascimento do Machado [de Assis], em que ele é negro, e a certidão de óbito em que ele está como branco”, conta. E completa: “Ou seja, para mim, está sendo muito importante assumir, entrar como negra. E óbvio que isso não vai mudar. Espero que não mude. Não deixem, por favor. Quando eu morrer (porque a gente é imortal, não imorrível), volto para puxar o pé de quem me embranquecer.”