Mais de uma semana se passou desde a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro e do Brasil. A vida insiste em continuar. Ao todo, 121 pessoas morreram. Sim, pessoas. Quatro policiais e 117 não policiais — que parte da imprensa insiste, ainda, em chamar de suspeito e uma parcela da população, mais que depressa, rotula como bandido.
É, entre as nomenclaturas, a cor da pele e os espaços onde ocorrem incursões deste tipo que é medido o tal “sucesso” tantas vezes evocado pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. Do ponto de vista político, visando 2026, faz sentido. Um grupo de governadores — de olho no espólio deixado por Jair Bolsonaro — bateu palmas para o Rio fazendo coro à barbárie.
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As fichas, mais uma vez, são colocadas pela direita na pauta da segurança pública. Após o morticínio, e por causa dele, a extrema-direita volta ao centro do debate, mais uma vez querendo jogar o Brasil, agora a partir da segurança pública, nas mãos de países estrangeiros, ao exigir que facções criminosas sejam consideradas como organizações terroristas. Não se trata de patriotismo, mas entreguismo. Nada novo sob o sol.
A operação policial evidencia, novamente, a ótica necropolítica — que decide quem deve viver e quem deve morrer — que rege aqueles que comandam o Estado. Entretanto, esse é o tipo de ação que subverte a lógica do Estado liberal, reivindicado e defendido nos palanques citadinos e virtuais por políticos alinhados à direita. Afinal, a pena de morte não está prevista no Código Penal brasileiro. Nem para “bandido”.
Metade dos 117 não policiais possuía algum tipo de passagem pela polícia. Nenhum deles consta na denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro que fundamentou a operação. Ou seja, nenhuma daquelas pessoas que morreram eram os procurados na ação que o governador diz ter sido planejada com antecedência. Até que se prove o contrário, o nível de criminalidade também não diminuiu e o suposto baque financeiro nas organizações criminosas não foi divulgado. Já o prejuízo psíquico, físico e econômico para famílias e trabalhadores do Complexo da Penha e do Alemão é evidente. Um sucesso, certo?
Bom, segundo a Quest, 64% dos moradores do estado do Rio de Janeiro aprovaram a operação. Castro recebeu flores de vizinhos em um condomínio na Barra da Tijuca e foi aplaudido de pé durante uma celebração da Igreja Católica no domingo. A atitude no templo sagrado me põe a perguntar se evidencia que os religiosos finalmente aceitaram que Jesus, em sua face humana, está mais para um homem negro, aquele que merece o calvário, do que o representado em imagens mundo a fora.
A aprovação carioca foi alta e chancela novas ações do mesmo tipo. Um padrão que se repete há anos, antes menos letal, mas com grau parecido de terror. O número de mortos e a naturalização social da letalidade policial excedem o campo racional da política pública. Há algo “a mais” — um componente afetivo, pulsional e moral que escapa à lógica técnica da segurança.
A morte de pessoas negras no Brasil está longe de causar uma crise ética. A questão guia o livro “Homus Modernus”, da professora e filósofa Denise Ferreira da Silva. O colonialismo é a antítese do liberalismo. Embora o último seja reivindicado, é o primeiro que parece ditar a ordem social.
Não há como uma crise ética emergir enquanto sujeitos gozam com a morte do outro em telas de uma polegada dos seus celulares, no caminho de volta do trabalho, ou em telas de TV no conforto das suas casas ou outros cantos da cidade.
O racismo e a violência de Estado não são apenas práticas de dominação, mas modos de gozar — formas de prazer inconsciente sustentadas por fantasias sociais de pureza, moralidade e punição.
Derek Hook aponta a hipótese do roubo do gozo: a crença de que o outro roubou o nosso direito ao gozo legítimo, usufruindo dele de forma ilícita. Em outras palavras, “ele tira o que é nosso”, supõe a sociedade a respeito de determinações de moral, decência, segurança, paz. É no nível inconsciente que a sociedade se organiza em torno da fantasia de que foi roubada por esses sujeitos.
A morte desse outro indesejado, impõe a proibição: este outro não pode usufruir, ao mesmo tempo, ocorre o gozo com o não gozo desse interditado. Ou seja, a morte do sujeito racializado, do suspeito descrito por parte da mídia e do nomeado “bandido” por uma parcela da população, restaura simbolicamente o equilíbrio, devolvendo à sociedade o gozo supostamente roubado. Veja: simbolicamente. O modus operandi das facções criminosas e a vida das pessoas na Penha e no Alemão seguem quase as mesmas. Ficaram os traumas. A vida insiste em continuar.