Quilombola, pensador e autor de obras fundamentais para o debate sobre território, colonialismo e conhecimento no Brasil, Nêgo Bispo voltou recentemente ao centro do debate público após a publicação de um artigo crítico ao seu pensamento. Um texto de Douglas de Barros no Blog da Boitempo criticou sua produção teórica, questionando se suas ideias poderiam ser consideradas ciência segundo padrões tradicionais.
Quando falamos de ciência, muita gente ainda imagina laboratórios fechados, artigos em inglês e pessoas com títulos acumulados em universidades prestigiadas. Essa imagem passa a falsa ideia de que a ciência é neutra, universal e separada da vida social. Não é. A ciência também é política.
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Ela nunca esteve fora das relações de poder. Pelo contrário: sempre foi moldada por quem teve acesso à educação formal, recursos financeiros, instituições reconhecidas e meios de validação. Historicamente, pessoas negras, indígenas e comunidades tradicionais foram sistematicamente afastadas desse lugar de autoridade. Devido ao racismo, seus saberes, muitas vezes, foram deslegitimados antes mesmo de serem escutados.
É exatamente esse processo que Nêgo Bispo denuncia ao afirmar que o colonialismo não se sustenta apenas pela força, mas também pela imposição de um único modo legítimo de pensar. A exclusão de determinados saberes não é acidental, mas parte de um projeto histórico que define quem pode pensar, falar e ser reconhecido.
No centro da crítica de Douglas Barros está a ideia de que o pensamento de Bispo se afastaria dos critérios tradicionais da ciência moderna, por valorizar a oralidade, a experiência e outras formas de compreender o mundo que não se organizam exclusivamente pela escrita acadêmica. Mas essa crítica parte da premissa de que apenas o conhecimento produzido dentro da universidade, segundo regras europeias, pode ser considerado ciência. Tudo o que escapa desse circuito tende a ser tratado como simbólico demais, pouco rigoroso ou insuficiente.
Essa não é uma discussão neutra. É uma herança direta do colonialismo. Durante séculos, saberes negros, indígenas e quilombolas foram classificados como mito, crença ou superstição — não porque fossem menos complexos, mas porque ameaçavam a ideia de que a Europa seria o centro legítimo do pensamento humano. O que vemos hoje é a continuidade desse processo, agora revestido de linguagem técnica e crítica acadêmica.
Ao discutir o que chamamos de desenvolvimento, Nêgo Bispo oferece uma chave importante para entender esse conflito. Ele afirma que desenvolver significa retirar o envolvimento, isto é, separar o ser humano da terra, da comunidade e da natureza. Nessa lógica, o desenvolvimento passa a ser entendido como progresso a qualquer custo, exploração do território e rompimento de vínculos coletivos.
Em oposição a isso, ele propõe outra forma de existir no mundo. Para povos quilombolas, indígenas e comunidades tradicionais, o objetivo não é des-envolver, mas envolver: permanecer em relação com a terra, com os rios, com as matas e com o território. Trata-se de um modo de vida e, também, de uma forma de produzir conhecimento que não separa teoria e prática, pensamento e corpo, saber e existência.
Ao falar de epistemologia, ou seja, da forma como o conhecimento é produzido, Nêgo Bispo sustenta que todo povo produz conhecimento a partir do lugar onde pisa. Não existe saber neutro ou fora da realidade. Todo conhecimento nasce de uma experiência histórica concreta, de um território e de um modo específico de se relacionar com o mundo.
Quando esse tipo de saber é avaliado apenas a partir dos critérios da ciência moderna ocidental, ele tende a ser desqualificado. Mas essa desqualificação diz menos sobre o conteúdo do pensamento e mais sobre os limites do próprio critério usado para julgá-lo.
É evidente que discutir rigor e método é legítimo. O problema surge quando o rigor é definido a partir de uma única tradição branca, europeia e urbana que foi apresentada como universal. Nesse momento, a crítica deixa de ser apenas intelectual e passa a funcionar como mecanismo de exclusão.
Essa disputa epistemológica já extrapola o debate acadêmico. Em 2025, o Ministério da Educação instituiu um programa nacional de incentivo à formação em saberes tradicionais que leva o nome de Nêgo Bispo, reconhecendo a importância de mestres e mestras quilombolas, indígenas e de comunidades tradicionais na produção de conhecimento. Trata-se de um gesto político importante que reconhece que outras epistemologias também podem orientar processos formativos e políticas públicas.
A equipe do nosso gabinete já passou por uma formação conduzida por Nêgo Bispo, em que sua concepção de conhecimento, território e ciência se apresentou como prática viva. A experiência nos ensinou que a epistemologia não é um debate distante: ela orienta decisões, prioridades e formas de atuação política concretas.

A pergunta que precisamos fazer, portanto, é quem decide o que é conhecimento legítimo? Quem tem autoridade para dizer o que é ciência? E, sobretudo, quais corpos estão autorizados a produzir saber?
O pensamento de Nêgo Bispo incomoda justamente porque rompe com essas fronteiras. Ele nos lembra que conhecimento não nasce apenas em gabinetes, mas também nas relações entre pessoas e território, na organização comunitária, na oralidade e na experiência cotidiana da luta.
Para povos quilombolas e comunidades tradicionais, saber é prática, é corpo, é vida compartilhada, é relação com a terra. Reduzir ciência ao que cabe em normas acadêmicas é ignorar deliberadamente essas formas de existência e produção de conhecimento.
Por isso, a ciência é política. Porque ela define quem pode falar, quem é ouvido e quem é reconhecido. E, no Brasil, essas definições continuam atravessadas por raça, classe e território. Questionar saberes quilombolas sem questionar esse desequilíbrio de poder é manutenção de privilégios históricos.
Reconhecer outras formas de produzir conhecimentos significa descolonizar a ciência, ampliar suas bases e permitir que ela sirva à sociedade como um todo, e não apenas a uma elite que, por muito tempo, monopolizou o direito de pensar.