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Sueli Carneiro tem cidadania beninense oficializada

Filósofa brasileira recebeu passaporte do Benim após articulação do documentário “Mulheres Negras em Rotas de Liberdade”
A filósofa e militante do movimento negro Sueli Carneiro.

A filósofa e militante do movimento negro Sueli Carneiro.

— Reprodução/Bob Wolfenson

4 de março de 2026

A filósofa, escritora e uma das principais referências do movimento negro brasileiro, Sueli Carneiro, recebeu oficialmente no dia 27 de fevereiro de 2026 seu passaporte do Benim, país localizado na África Ocidental. O documento formaliza sua titularização de cidadã beninense concedida em dezembro de 2024.

A retirada e entrega oficial do passaporte ocorreu em uma cerimônia especial no país africano e registrada pelo documentário “Mulheres Negras em Rotas de Liberdade”, dirigido por Urânia Munzanzu e produzido pela Acarajé Filmes em co-produção com a Mulungu Realizações Culturais.

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Carneiro é uma das principais filósofas, escritoras e ativistas feministas antirracistas do Brasil. Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), é fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Sua atuação foi fundamental para a criação de políticas públicas de igualdade racial e programas de saúde mental voltados para mulheres negras.

A conquista do título teve início em março de 2023, durante as gravações do documentário, quando Sueli revelou que seu sonho era ter um passaporte de um país africano. A partir desse momento, a equipe do filme passou a articular caminhos institucionais para tornar o desejo realidade, processo que culminou em um ato simbólico de forte dimensão política, histórica e cultural. 

Sueli Carneiro segurando seu passaporte de Benim. Foto: Alile Dara Onawale

Pouco tempo depois, o presidente do Benim anunciou, em visita a Salvador, a possibilidade de pessoas afrodescendentes solicitarem cidadania beninense como ato de reparação histórica. A partir dessa prerrogativa, a equipe buscou caminhos diplomáticos para viabilizar o processo. Após articulações junto ao Ministério da Justiça e ao Ministério das Relações Exteriores do Benin, foi autorizada a abertura do processo,  sendo Sueli a primeira pessoa a dar entrada na solicitação dentro desse novo marco legal.

“Não me interessa o lugar da exceção nem o título de ‘primeira’, mas a possibilidade de que esse gesto abra caminhos. Que muitas outras mulheres negras e pessoas negras brasileiras possam acessar esse direito, não como concessão, mas como parte de um processo de reconhecimento e reparação histórica”, declarou a filósofa.

Para a diretora Urânia Munzanzu, a dupla cidadania de Sueli representa “a materialização do sonho da militância negra no Brasil. É a memória de Luiza Bairros, que incansavelmente reivindicou esse direito à cidadania africana para afro-brasileiros, sendo honrada com a política de reparação histórica que nos é devida”.

A diretora da Mulungu, Flávia Santana, destaca a dimensão coletiva do ato, como uma conquista que representa não apenas a realização de um desejo pessoal, mas um marco no debate sobre reparação histórica, pertencimento e diáspora africana. “Não é um sonho só dela, é um sonho de toda uma comunidade. Dona Sueli sempre fala que não é uma conquista individual, mas sim coletiva. Poder colaborar para que isso acontecesse é algo que me emociona profundamente”.

O retorno da equipe de filmagem ao Benim foi acompanhado por uma comitiva para conclusão das gravações do documentário e registro da cerimônia de entrega do passaporte. A comitiva contou com a presença de Tricia Calmon, superintendente de Apoio e Defesa aos Direitos Humanos do governo da Bahia; Christiane Gomes, coordenadora de projetos na Fundação Rosa Luxemburgo; Eliane Dias, advogada e empresária; Natália Carneiro, jornalista e coordenadora de Comunicação do Portal Geledés, além da escritora Conceição Evaristo e da ativista e advogada Mirtes Renata, que também são personagens do documentário.

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