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Helenira Resende, a guerrilheira negra que o golpe militar fez desaparecer

Aos 28 anos, a militante do movimento estudantil e da Guerrilha do Araguaia foi torturada e morta por militares em 1972; seu corpo permanece desaparecido há 54 anos
Helenira Resende, estudante negra, vítima do golpe militar de 1964 no Brasil.

Helenira Resende, estudante negra, vítima do golpe militar de 1964 no Brasil.

— Acervo Helenira Resende/AEL

31 de março de 2026

A história de Helenira Resende de Souza Nazareth se insere entre as trajetórias marcadas pela repressão do golpe militar no Brasil, que completa 62 anos nesta terça-feira (31). Nascida em Cerqueira César, no interior de São Paulo, iniciou sua atuação política ainda jovem, na cidade de Assis, onde ajudou a fundar o grêmio estudantil de sua escola.

Na década de 1960, se mudou para a capital paulista para cursar Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP). Na instituição, assumiu papel de liderança no movimento estudantil e foi eleita presidente do centro acadêmico.

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Conhecida entre colegas pelo apelido “Preta”, se destacou como uma das vozes do movimento estudantil em um período de mobilizações contra o regime instaurado após o golpe militar de 1964.

A militância de Helenira resultou em sucessivas prisões. A primeira ocorreu em 1967, após escrever frases contra a ditadura em muros da cidade. No ano seguinte, ela voltou a ser detida ao convocar colegas para uma manifestação em São Paulo.

Ainda em 1968, foi presa durante o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes, realizado em Ibiúna, onde participou como delegada e ocupava a vice-presidência da entidade.

Após a prisão, passou por unidades como o Presídio Tiradentes e o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Foi libertada por habeas corpus pouco antes da edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que ampliou a repressão no país.

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Entrada na clandestinidade e ida ao Araguaia

Com o avanço das medidas repressivas, Helenira ingressou na clandestinidade. Militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), passou a viver em diferentes locais até seguir para o sul do Pará.

Na região, integrou a Guerrilha do Araguaia, movimento organizado por militantes que defendiam a derrubada do regime por meio da luta armada. No local, adotou o codinome “Fátima” e atuou junto a camponeses e outros integrantes da organização no Destacamento A da guerrilha.

Helenira desapareceu em 1972, durante a chamada Operação Papagaio, ação conduzida pelas Forças Armadas contra a guerrilha. Relatos indicam que, em 29 de setembro daquele ano, ela foi atingida durante confronto com militares.

Segundo o Relatório Arroyo, produzido pelo dirigente do PCdoB Ângelo Arroyo, ela estava de guarda com um companheiro quando se deparou com soldados. A metralhadora do parceiro falhou. Ele correu. Helenira, sozinha, atirou com uma espingarda 16 e matou um militar. Em seguida, outro soldado a atingiu com rajadas de metralhadora. Ferida, sacou o revólver e atirou novamente.

Foi presa e torturada até a morte. O Relatório Arroyo descreve que seu corpo foi enterrado por militares na localidade de Oito Barracas. Outros depoimentos, como o do camponês José Luz Filho, confirmam a versão: “Quando o Exército chegou a 1ª vez, matou a Fátima. Ela está enterrada a 100 metros das ‘oito barracas'”.

Seu corpo nunca foi localizado, o que a inclui entre os casos de desaparecimento forçado registrados no período.

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Legado e desaparecimento

Helenira Resende tinha 28 anos quando foi assassinada. Após sua morte, o Destacamento A da guerrilha passou a se chamar Destacamento Helenira Resende de Souza Nazareth em sua homenagem.

Em sua última carta à família, provavelmente escrita em 1971, a jovem deixou registrada a certeza da escolha que fez. 

“Eu estou muito contente com o que faço e a vida que estou levando. Por isso, não quero choro nem velas e muito menos fitas amarelas. Se tiver que haver fitas, que sejam vermelhas.”


Em 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou o Brasil pelo desaparecimento de 62 pessoas na região do Araguaia no caso Gomes Lund e Outros (“Guerrilha do Araguaia”) vs. Brasil. Helenira Resende integra a lista. Seu corpo nunca foi encontrado.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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