A história de Helenira Resende de Souza Nazareth se insere entre as trajetórias marcadas pela repressão do golpe militar no Brasil, que completa 62 anos nesta terça-feira (31). Nascida em Cerqueira César, no interior de São Paulo, iniciou sua atuação política ainda jovem, na cidade de Assis, onde ajudou a fundar o grêmio estudantil de sua escola.
Na década de 1960, se mudou para a capital paulista para cursar Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP). Na instituição, assumiu papel de liderança no movimento estudantil e foi eleita presidente do centro acadêmico.
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Conhecida entre colegas pelo apelido “Preta”, se destacou como uma das vozes do movimento estudantil em um período de mobilizações contra o regime instaurado após o golpe militar de 1964.
A militância de Helenira resultou em sucessivas prisões. A primeira ocorreu em 1967, após escrever frases contra a ditadura em muros da cidade. No ano seguinte, ela voltou a ser detida ao convocar colegas para uma manifestação em São Paulo.
Ainda em 1968, foi presa durante o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes, realizado em Ibiúna, onde participou como delegada e ocupava a vice-presidência da entidade.
Após a prisão, passou por unidades como o Presídio Tiradentes e o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Foi libertada por habeas corpus pouco antes da edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que ampliou a repressão no país.
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Entrada na clandestinidade e ida ao Araguaia
Com o avanço das medidas repressivas, Helenira ingressou na clandestinidade. Militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), passou a viver em diferentes locais até seguir para o sul do Pará.
Na região, integrou a Guerrilha do Araguaia, movimento organizado por militantes que defendiam a derrubada do regime por meio da luta armada. No local, adotou o codinome “Fátima” e atuou junto a camponeses e outros integrantes da organização no Destacamento A da guerrilha.
Helenira desapareceu em 1972, durante a chamada Operação Papagaio, ação conduzida pelas Forças Armadas contra a guerrilha. Relatos indicam que, em 29 de setembro daquele ano, ela foi atingida durante confronto com militares.
Segundo o Relatório Arroyo, produzido pelo dirigente do PCdoB Ângelo Arroyo, ela estava de guarda com um companheiro quando se deparou com soldados. A metralhadora do parceiro falhou. Ele correu. Helenira, sozinha, atirou com uma espingarda 16 e matou um militar. Em seguida, outro soldado a atingiu com rajadas de metralhadora. Ferida, sacou o revólver e atirou novamente.
Foi presa e torturada até a morte. O Relatório Arroyo descreve que seu corpo foi enterrado por militares na localidade de Oito Barracas. Outros depoimentos, como o do camponês José Luz Filho, confirmam a versão: “Quando o Exército chegou a 1ª vez, matou a Fátima. Ela está enterrada a 100 metros das ‘oito barracas'”.
Seu corpo nunca foi localizado, o que a inclui entre os casos de desaparecimento forçado registrados no período.
Legado e desaparecimento
Helenira Resende tinha 28 anos quando foi assassinada. Após sua morte, o Destacamento A da guerrilha passou a se chamar Destacamento Helenira Resende de Souza Nazareth em sua homenagem.
Em sua última carta à família, provavelmente escrita em 1971, a jovem deixou registrada a certeza da escolha que fez.
“Eu estou muito contente com o que faço e a vida que estou levando. Por isso, não quero choro nem velas e muito menos fitas amarelas. Se tiver que haver fitas, que sejam vermelhas.”
Em 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou o Brasil pelo desaparecimento de 62 pessoas na região do Araguaia no caso Gomes Lund e Outros (“Guerrilha do Araguaia”) vs. Brasil. Helenira Resende integra a lista. Seu corpo nunca foi encontrado.