“Quando chega em casa, ele costuma comer iogurte, cuscuz, arroz e macarrão. Mas pede com frequência doces, biscoitos e chicletes.” A fala de Luana Beatriz da Silva, de 24 anos, mãe de Luiz Miguel, de 3, resume um desafio que se repete diariamente em milhares de lares brasileiros.
Moradora do bairro Cidade Universitária, na parte alta de Maceió (AL), ela tenta equilibrar a alimentação do filho entre as refeições oferecidas na creche e os produtos ultraprocessados que fazem parte da rotina das crianças.
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Mas nem sempre consegue. “Às vezes eu consigo limitar o consumo, mas em muitas ocasiões acabo cedendo”, conta.
A rotina alimentar de Luiz Miguel não foge muito do que especialistas têm observado em todo o país. Entre refeições tradicionais e alimentos industrializados, a infância brasileira vem sendo cada vez mais atravessada por produtos ricos em açúcar, gordura e sódio.
Quando o olhar se volta para crianças negras, o problema expõe algo maior que a alimentação, as desigualdades que influenciam o acesso à comida saudável desde os primeiros anos de vida.
Os primeiros anos moldam hábitos para toda a vida
Os dados evidenciam que a exposição aos ultraprocessados começa cedo. O Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019), maior levantamento já realizado sobre alimentação de crianças menores de cinco anos no Brasil, destaca que os “primeiros anos de vida da criança se caracterizam por crescimento e desenvolvimento intensos e elevados requerimentos nutricionais”.
Coordenado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com participação da UERJ, UFF e Fiocruz, o estudo ouviu famílias de 14.558 crianças de até 5 anos em 123 municípios brasileiros e no Distrito Federal, entre fevereiro de 2019 e março de 2020.
Segundo os pesquisadores, é justamente nesse período que a alimentação deixa de depender exclusivamente do leite materno e passa a incorporar os hábitos alimentares da família, influenciando o crescimento, o desenvolvimento e as preferências alimentares que podem acompanhar a criança até a vida adulta.
O levantamento identificou que 20,5% das calorias consumidas por crianças entre 6 e 23 meses já vêm de alimentos ultraprocessados. Entre aquelas de 24 a 59 meses, esse percentual sobe para 30,4%. No Nordeste, os ultraprocessados respondem por 32,8% das calorias ingeridas por crianças dessa faixa etária.
Quando a alimentação saudável deixa de ser uma escolha
Ao contrário do que ocorre em muitos territórios marcados pela insegurança alimentar, Luana afirma que não enfrenta dificuldades para encontrar frutas e verduras. Na rua onde mora, vendedores passam frequentemente oferecendo alimentos frescos. Há também feira livre e mercados próximos.
Mas a disponibilidade desses alimentos não impede que os produtos industrializados ocupem espaço na rotina das crianças. “Ele gosta muito de doce. Gosta de chiclete, biscoito. A gente tenta controlar, mas nem sempre consegue”, relata.

A experiência da família ajuda a compreender um cenário identificado nacionalmente. Apesar da oferta de alimentos frescos em algumas localidades, o consumo desses produtos ainda está distante do recomendado para grande parte das crianças brasileiras.
O ENANI identificou que apenas 23% das crianças entre 6 e 23 meses consumiam hortaliças, enquanto 56,9% consumiam frutas. Os dados mostram que a presença de feiras, mercados ou vendedores ambulantes não é suficiente, por si só, para garantir uma alimentação mais saudável. Entre a oferta e o consumo existem fatores como renda, publicidade, rotina de trabalho, hábitos familiares e o próprio ambiente alimentar ao qual as crianças estão expostas desde cedo.
Na avaliação da nutricionista Vitória Moraes, mestranda em Saúde Coletiva e analista de inteligência da ACT Promoção da Saúde, atribuir às famílias a responsabilidade exclusiva pela alimentação das crianças ignora fatores estruturais que influenciam essas escolhas.
“A escolha nunca é individual. Somos influenciados pelo ambiente no qual estamos inseridos. Isso inclui a qualidade dos alimentos ofertados no bairro onde vivemos, o preço da alimentação saudável, o nível de informação que temos sobre alimentação e saúde, a exposição à publicidade e propaganda e o tempo disponível para o preparo dos alimentos”, explica.
Segundo Moraes, observar apenas o que chega ao prato sem considerar as condições em que as famílias vivem produz uma leitura incompleta do problema.
“Agora imagine como esses fatores influenciam as escolhas alimentares de uma família negra que passa horas em deslocamento entre casa e trabalho, possui jornadas extensas e muitas vezes conta com pouco tempo para cozinhar”, defende.
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Na avaliação da especialista, esse conjunto de barreiras está relacionado ao chamado racismo alimentar. “É uma forma de discriminação que dificulta o acesso de grupos étnico-raciais à alimentação saudável e aos meios de produção, como a terra. O racismo alimentar define quem produz, quem acessa e em que condições os alimentos são distribuídos e consumidos.”
Os impactos dessa desigualdade também aparecem no acesso a alimentos essenciais para o desenvolvimento infantil. Dados do ENANI mostram que crianças pretas entre 6 e 23 meses consumiam, em média, 51,3 gramas de carnes e derivados por dia. Entre crianças brancas, esse consumo chegava a 72,2 gramas diárias.
A diferença revela que a desigualdade alimentar não se expressa apenas na presença dos ultraprocessados, mas também no acesso desigual a alimentos ricos em proteínas, ferro e outros nutrientes fundamentais para o crescimento e o desenvolvimento na primeira infância.
Segundo Moraes, discutir alimentação infantil sem considerar essas condições acaba transferindo para as famílias uma responsabilidade que também é do poder público e das estruturas sociais.
A especialista afirma que fatores como renda, oferta de alimentos nos territórios, condições de trabalho, mobilidade urbana e acesso à informação influenciam diretamente o padrão alimentar das crianças. Para ela, essas barreiras costumam atingir de forma mais intensa a população negra, especialmente moradores de áreas periféricas.
Quando pobreza, raça e alimentação se cruzam
A insegurança alimentar é apontada por especialistas como um dos fatores que ajudam a explicar o avanço dos ultraprocessados entre famílias negras. Segundo Moraes, estudos mostram que, mesmo antes da pandemia, domicílios chefiados por homens e mulheres negras já enfrentavam mais dificuldades para adquirir alimentos in natura.
De acordo com a nutricionista, o cenário se agravou após a crise sanitária, atingindo principalmente famílias comandadas por mulheres negras, que registraram alguns dos maiores níveis de insegurança alimentar.
“A insegurança alimentar ajuda a explicar esse cenário. Mesmo conhecendo os riscos dos ultraprocessados, muitas famílias precisam lidar diariamente com preços elevados dos alimentos in natura e com a redução do poder de compra”, destaca.
A especialista afirma que projeções recentes indicam uma tendência preocupante: enquanto os alimentos ultraprocessados se tornam relativamente mais baratos, os produtos frescos seguem pressionados pela inflação. O impacto é maior justamente entre famílias de menor renda, que destinam parcela mais significativa do orçamento à alimentação.
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Os números revelam uma desigualdade silenciosa
As análises feitas por pesquisadores com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018 mostram que o consumo de ultraprocessados ainda é ligeiramente menor entre pretos (17,7%) e pardos (17,8%) do que entre brancos (18,6%).
Mesmo assim, o crescimento desses produtos entre a população negra tem chamado atenção dos pesquisadores. Entre os levantamentos mais recentes, houve aumento de 2,04 pontos percentuais no consumo de ultraprocessados entre pretos e pardos.
A expansão é ainda mais intensa entre moradores de regiões de menor renda, como Norte e Nordeste, e em áreas rurais. Para a nutricionista, os números indicam que as famílias negras vêm se tornando mais vulneráveis ao avanço desses produtos.
“A insegurança alimentar ajuda a explicar esse cenário. Mesmo conhecendo os riscos dos ultraprocessados, muitas famílias precisam lidar diariamente com preços elevados dos alimentos in natura e com a redução do poder de compra”, acrescenta.

O que acontece quando a infância é alimentada pelo açúcar
A preocupação dos especialistas não está apenas no consumo atual. O alerta se concentra principalmente nos efeitos que essa alimentação pode produzir ao longo da vida.
No relatório, os pesquisadores alertam que “dietas nutricionalmente inadequadas em quantidade e qualidade podem aumentar a chance de todas as formas de má nutrição”, incluindo deficiências nutricionais, sobrepeso e obesidade.
O ENANI identificou que 60,6% das crianças entre 6 e 23 meses consumiam doces e açúcares. Na mesma faixa etária, 57,5% consumiam bebidas registradas pelo levantamento.
Entre crianças de 24 a 59 meses, o consumo de doces alcança 80,4%. Para Vitória Moraes, a exposição precoce aos ultraprocessados altera profundamente a relação das crianças com a comida.
Sobre o assunto, ainda segundo a analista, os impactos vão além do ganho de peso. “Quando uma criança consome um ultraprocessado, geralmente ela deixa de consumir uma fruta, uma verdura ou outro alimento importante para o desenvolvimento. Isso reduz a ingestão de vitaminas e minerais essenciais para o crescimento.”
A nutricionista destaca ainda que alguns estudos já relacionam esse padrão alimentar a alterações emocionais e comportamentais. “Existem pesquisas que associam o consumo desses produtos à ansiedade, hiperatividade, medo e outras questões que merecem atenção.”
A especialista destaca que os impactos dos ultraprocessados tendem a ser mais graves em contextos marcados por desigualdades raciais. Embora a obesidade infantil esteja distribuída de forma semelhante entre os grupos raciais, crianças negras costumam enfrentar riscos iguais ou maiores em situações de pobreza.
“As políticas públicas precisam considerar essas desigualdades. Caso contrário, corremos o risco de ampliar ainda mais os impactos da obesidade infantil e de outras doenças relacionadas à alimentação entre crianças negras”, alerta.
O próprio relatório alerta que a introdução precoce de alimentos ricos em açúcar, gordura e sódio aumenta os riscos de sobrepeso, obesidade e doenças crônicas ainda na infância. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os açúcares livres não ultrapassem 10% das calorias consumidas diariamente.

A influência da indústria e o futuro da alimentação infantil
Quando fala sobre o que gostaria de ver mudando em seu bairro, Luana não menciona apenas a distribuição de alimentos. Ela também fala sobre informação. “Antes, a associação distribuía laranja, banana-da-terra, macaxeira e batata. Era simples, mas fazia diferença para muitas famílias.” Hoje, a iniciativa não existe mais.
Para a pesquisadora, ações como essa poderiam ajudar a complementar a alimentação de famílias em situação de maior vulnerabilidade. Luana também defende palestras e atividades educativas voltadas à alimentação infantil.
“Estamos falando de uma disputa desigual. De um lado estão as famílias tentando construir hábitos saudáveis. Do outro, uma indústria com enorme capacidade de influenciar desejos, comportamentos e escolhas desde os primeiros anos de vida”, afirma a especialista.
Segundo Moraes, enfrentar esse problema exige medidas estruturais. Entre elas estão a regulamentação nacional da venda de ultraprocessados em cantinas escolares, proposta que tramita no Senado Federal por meio do PL 4501/2020, e a definição de alíquotas efetivas para bebidas açucaradas, discussão prevista para avançar até o fim de 2026.
“O combate à obesidade infantil precisa considerar as desigualdades raciais e sociais. Sem isso, continuaremos tratando como escolha individual aquilo que é resultado de um sistema que produz desigualdades no acesso à alimentação”, finaliza.
Este conteúdo faz parte de uma parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.
