Como o ambiente escolar pode ser um agente de proteção das crianças contra o abuso sexual?

Meninas negras são as maiores vítimas da violência sexual no Brasil. Em meio a esse cenário, escolas públicas se tornam espaços essenciais de acolhimento, prevenção e denúncia
Atividade da Caravana Girassol, iniciativa da Secretaria Municipal de Educação (Semed), em escola da rede pública de ensino de Maceió.

Atividade da Caravana Girassol, iniciativa da Secretaria Municipal de Educação (Semed), em escola da rede pública de ensino de Maceió.

— Divulgação/Semed

6 de agosto de 2025

Mais da metade das vítimas de estupro no Brasil em 2024 eram meninas negras de até 13 anos. É o que revela o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em julho de 2025 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Com base em registros das secretarias estaduais de segurança de todo o país, o relatório aponta que 61,4% dos casos de estupro registrados no ano passado foram de estupro de vulnerável — quando a vítima tem menos de 14 anos. 

Entre as vítimas, a maioria era do sexo feminino e se autodeclarava preta ou parda, o que evidencia como a violência sexual atinge de forma desproporcional meninas negras na infância. Diante desse cenário, aumenta a responsabilidade dos espaços que compõem o cotidiano dessas crianças e adolescentes na prevenção e proteção contra esse tipo de violência.

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Escola como espaço de acolhimento e prevenção

Em Maceió (AL), escolas da rede municipal têm se tornado espaços estratégicos de proteção a crianças e adolescentes em situação de violência. Entre agosto de 2023 e julho de 2024, mais de 20 unidades foram atendidas pela Caravana Girassol, iniciativa da Secretaria Municipal de Educação (Semed) voltada à prevenção de abusos, negligência e outras violações de direitos. 

Criado em 2023, o projeto já impactou comunidades escolares com formações e oficinas que tratam de temas como violência sexual, racismo, xenofobia, agressões físicas, conflitos familiares e transfobia.

A proposta é a de fortalecer a escola como um espaço de escuta, acolhimento e ação. A Caravana prioriza escolas que já registraram casos de violência ou solicitaram apoio, promovendo uma atuação mais sensível e comprometida com o bem-estar das infâncias. 

Em 2025, o projeto passou a funcionar com ações planejadas por Regiões Administrativas, com encontros iniciados em maio e previsão de seguir até novembro, ampliando o alcance para novas unidades.

“O Projeto Caravana Girassol é fundamental no cenário educacional porque a Semed entende que educar vai muito além da formação intelectual. A escola pública também deve ser um espaço de cuidado, preservação de direitos, segurança física e bem-estar emocional”, afirma Ademir Oliveira, coordenador-geral de Ações de Educação em Direitos Humanos e Cidadania.

Mais do que disseminar informação, a Caravana atua com uma abordagem interseccional, como destaca Érica Mali, coordenadora de Educação em Direitos Humanos da Semed. “Trabalhamos as violências considerando o sujeito em sua complexidade, sem recortes simplistas. Desde as imagens usadas nas oficinas até os dados apresentados, raça e gênero são elementos centrais”, afirma.

Mali observa ainda que, desde o início do projeto, aumentaram as denúncias feitas dentro das escolas — sinal de que crianças e adolescentes passaram a se sentir mais seguras para falar. “Pela primeira vez temos um projeto sistematizado e um protocolo que orienta toda a rede. Isso tem gerado um espaço de confiança”, destaca.

No fim de 2024, a secretaria elaborou um protocolo específico para orientar o atendimento a casos de abuso nas escolas. O documento estabelece diretrizes para acolhimento, encaminhamento e ações preventivas, contribuindo para consolidar práticas mais efetivas de proteção.

Apesar dos avanços, os desafios ainda são muitos. Mali cita o desconhecimento, por parte de alguns profissionais, dos marcos legais que garantem os direitos das crianças e adolescentes, além da resistência de parte das famílias — especialmente de figuras masculinas — frente a um tema que muitas vezes confronta noções tradicionais de cuidado no espaço doméstico.

Ainda assim, a equipe da Caravana reafirma que a escola pode e deve ser um elo decisivo na interrupção de ciclos de violência. “Nosso papel é ajudar a construir ambientes seguros, onde as crianças possam crescer protegidas. Isso só é possível com informação, formação e diálogo”, conclui a coordenadora.

Comunidade escolar participa de iniciativa da Caravana Girassol em escola da rede pública de Maceió. Foto: Semed/Divulgação

Cotidiano escolar e escuta ativa como ferramentas essenciais

Em uma escola de São Paulo, o trabalho para identificar e acolher crianças vítimas de abuso sexual é diário e atento. Segundo a coordenação pedagógica da unidade, que preferiu não se identificar, a instituição mantém um acompanhamento constante dos estudantes, não apenas em relação ao aprendizado, mas também em suas relações sociais e emocionais.

“Nos conselhos de classe, perguntamos como a criança se relaciona com os colegas, se traz algum relato que mereça atenção. É uma escuta ativa para perceber sinais que muitas vezes vão além da sala de aula”, explica um membro da equipe.

Para prevenir o abuso, a escola desenvolve atividades educativas específicas, como oficinas de alfabetização sexual que ensinam, por meio de bonecos e dinâmicas lúdicas, quais são as partes do corpo que não podem ser tocadas, mesmo que o adulto peça permissão. 

“Esses momentos muitas vezes fazem com que as crianças relatem situações vivenciadas, o que nos ajuda a identificar possíveis casos de abuso”, relata.

Entre os adolescentes, a abordagem é diferente, os professores acompanham grupos pequenos de estudantes semanalmente, criando vínculos que favorecem a confiança e a abertura para relatos delicados.

Além disso, a escola reformulou seu Grêmio Estudantil, organizando-o em comitês temáticos, como o “Diálogos de Gênero”, que promove discussões sobre equidade e direitos.

“Esse espaço ganhou força por causa do contexto da região, próxima a centros de acolhimento para mulheres trans, e tem servido para que meninas e adolescentes possam falar abertamente sobre suas experiências, incluindo relatos de violência sexual”, conta a coordenação.

O enfrentamento das denúncias é complexo. A coordenação informa que encaminha cerca de um caso de abuso por mês à rede de proteção, acionando órgãos como o Conselho Tutelar, Delegacia da Mulher e a Vara da Criança e do Adolescente.

“Não somos polícia, nosso papel é identificar sinais e acionar a rede. Mas muitas vezes o Conselho Tutelar demora a agir, por isso buscamos parcerias com a saúde e o judiciário para proteger melhor a criança”, explica.

Essa atuação exige um esforço grande da coordenação pedagógica, que acumula a responsabilidade de elaborar relatórios, garantir sigilo e acompanhar os processos, muitas vezes em detrimento de outras funções.

A preparação dos profissionais para lidar com essa realidade é permanente. “Começamos com rodas de conversa sobre equidade de gênero e violência sexual, baseadas em dados públicos que mostram a gravidade do problema. Hoje, incluímos esse tema nos horários formativos dos professores, com orientações claras sobre como agir em casos de denúncia”, afirma.

Além disso, a rede municipal oferece suporte técnico para evitar a revitimização das crianças e garantir que os relatos sejam encaminhados com responsabilidade.

A escola ressalta que, diferentemente das instituições particulares, que registram pouquíssimas denúncias, as escolas públicas são responsáveis pela maioria dos relatos e acolhimentos

“Isso revela desigualdades no acesso à proteção e mostra como é fundamental fortalecer o trabalho nas escolas públicas para garantir um ambiente seguro e de confiança para todas as crianças e adolescentes”, pontua.

Iniciativas integradas para prevenção e proteção

O projeto “Eu Me Protejo” nasceu da união de profissionais de diferentes áreas — educação, comunicação, psicologia, direito, medicina, segurança e ativismo em direitos humanos — com o objetivo de criar um material gratuito e acessível para prevenir a violência contra crianças.

Segundo Neusa Maria, psicóloga e coautora do projeto, a iniciativa é totalmente independente e voluntária, resultado do esforço de pessoas que reconhecem a urgência de enfrentar a violência na infância no Brasil. “É um trabalho feito com tempo e boa vontade, porque sabemos o quanto é urgente agir”, destaca.

A cartilha tem contribuído para que crianças, pais e educadores identifiquem possíveis sinais de abuso, que podem variar de acordo com a idade e o tipo de violência sofrida. A seguir, a psicóloga lista alguns dos principais sintomas que podem indicar situações de abuso:

  • Lesões inexplicáveis, como hematomas, cortes ou queimaduras;
  • Lesões em áreas do corpo que não são comuns, como nádegas, coxas ou genitálias;
  • Dor ou desconforto ao sentar, urinar, ou evacuar;
  • Mudanças repentinas de comportamento, como agressividade ou isolamento;
  • Dificuldade em confiar em adultos ou em formar relacionamentos saudáveis;
  • Comportamentos sexuais inapropriados para a idade;
  • Medo ou ansiedade em relação a certas pessoas, ou situações;
  • Baixa autoestima ou autoconfiança;
  • Dificuldade em expressar emoções ou sentimentos;
  • Dificuldade de socialização; 
  • Ansiedade, depressão ou outros problemas de saúde mental;
  • Mudanças no desempenho escolar ou na frequência às aulas;
  • Uso de linguagem ou comportamentos que não são apropriados para a idade;
  • Mudança na letra, falta de apetite, insônia ou sonolência;
  • Dificuldade em estabelecer limites saudáveis ou em dizer “não”.

Com foco na população mais vulnerável, o projeto adota uma abordagem afrocentrada, especialmente voltada para meninas negras, que são as maiores vítimas de estupro no Brasil. 

Neusa Maria, coautora do projeto Eu Me Protejo. Foto: Divulgação

A psicóloga explica que a escolha da mascote negra e com deficiência é proposital, pois essas crianças enfrentam múltiplas vulnerabilidades relacionadas a gênero, raça e deficiência. “O conhecimento da realidade vivida nos permite adequar a linguagem e fortalecer vínculos com as crianças, criando empatia e referência”, afirma.

Sobre os desafios das escolas no enfrentamento da violência sexual infantil, a psicóloga aponta que não se trata de um erro isolado das instituições, mas de uma falta de rede integrada e protocolos claros. 

“A escola sozinha não dá conta. O problema maior é a ausência de políticas públicas e formação contínua para os professores”, analisa. A coautora ainda critica a abordagem limitada do tema, que muitas vezes é trabalhado apenas no dia 18 de maio, data do combate ao abuso, sem uma política permanente de prevenção.

Neusa ressalta que o tabu em torno do abuso sexual infantil permanece forte em escolas e famílias, impedindo o avanço do debate.

“Não falar é naturalizar a violência. O tema é oculto porque acontece na maioria das vezes dentro das famílias, é transgeracional e, segundo a ONU, é o crime mais negligenciado do mundo”, alerta. 

Para a co-autora, o medo de romper o status quo e a associação equivocada entre prevenção e estímulo contribuem para a invisibilidade do problema. Para que a escola se torne um verdadeiro agente de proteção, é fundamental que ela atue em conjunto com famílias, Estado e sociedade. 

Ainda segundo a psicóloga, a prevenção deve começar antes que a violência aconteça, envolvendo pais, professores e comunidade. “A escola precisa inserir a prevenção em seu projeto político-pedagógico, formar seus profissionais e trabalhar com outras instituições, para que a proteção seja efetiva”, finaliza.

Este conteúdo é resultado de uma parceria da Alma Preta com o projeto Cria Coragem.

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  • Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Com experiência em revisão, edição, reportagem, primeira infância e jornalismo independente. Tem trabalhos publicados no UOL (TAB, VivaBem, ECOA e UOL Notícias), Agência Pública, Ponte Jornalismo, Estadão e Yahoo.

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