Em Jaraguari, no Mato Grosso do Sul, a comunidade quilombola de Furnas do Dionísio vive entre avanços e ameaças. Embora tenha conquistado políticas públicas e reconhecimento cultural, os impactos ambientais causados pelo agronegócio vizinho — como uso de agrotóxicos e desequilíbrios ecológicos — desafiam a saúde, a agricultura e os modos de vida locais.
Na educação, por exemplo, em 2025 a Secretaria Municipal de Educação foi reconhecida como modelo de boa prática pelo Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul pela adoção inédita da disciplina “Cultura Afro-Brasileira”, ministrada na Escola Municipal localizada na área de Furnas do Dionísio.
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Na contramão desse reconhecimento, a região vive uma realidade nefasta das consequências do manejo de solo e do desmatamento, com danos aos recursos hídricos que abastecem a comunidade. “O sinônimo de progresso traz várias implicações e mudanças que geram tensões nas comunidades”, analisa Caroline Ayala, uma das lideres da comunidade.
Maria Aparecida, presidente da Associação de Furnas do Dionísio, diz que a convivência com o agronegócio tem sido cada vez mais difícil. O uso intensivo de agrotóxicos afeta as plantações dos pequenos produtores quilombolas, que também lidam com o aumento de insetos e animais silvestres forçados a migrar das áreas desmatadas.
“Aparecem uns insetinhos verdes, catetos e algumas vezes até onça já vimos, o que prejudica os hortifrutis e as lavouras de modo geral”, comenta. Essas presenças incômodas contribuem para a destruição da agricultura desenvolvida com muito esforços pelos quilombolas.
“Não posso dizer que o agronegócio não é importante”, reflete o produtor rural da comunidade Nilson Abadio Martins. No entanto, ele corrobora o relato danoso dos efeitos dos defensivos agrícolas para a comunidade.
“Hoje estamos praticamente cercados por alguns produtores de soja que estão próximos a comunidade. Muitos insetos acabam se instalando de forma tão rápida que muitas das vezes é impossível combatê-los”, lamenta Abadio. Ele detalha que são espécies como “famoso cascudo, bicudo, percevejo e chupão”.
Nilson Abadio produz berinjela, abobrinha menina, abobrinha paulista, quiabo, jiló e maxixe. Os ataques dos insetos, contudo, não são seletivos, quer dizer, abrangem praticamente todas as culturas do local, que também inclui feijão, cana de açúcar, mandioca e vagem de outros quilombolas.
O que os produtores rurais de Furnas do Dionísio tem feito para minimizar esse quadro é recorrer a técnicos locais de instituições com a Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural de Mato Grosso do Sul (Agraer) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A esperança, nas palavras de Nilson Abadio, é de que esse acompanhamento técnico sensibilize e encontre alternativas para evitar a aplicação desses defensivos, que tem prejudicado o meio ambiente e se traduzido em transtornos ao produtores e para as pessoas que consomem as comodities.
Por hora, os quilombolas de Furnas do Dionísio se sentem realizados com a produção de rapadura, considerada um sucesso entre as culturas do local, nesse caso derivada da cana de açúcar.

Esconderijo
Furnas do Dionísio é uma das comunidades quilombolas mais tradicionais do estado e foi uma das primeiras a conquistar a titulação no Brasil, no início dos anos 2000. A comunidade ocupa 1.018,28 hectares, situa-se a 45 quilômetros ao norte de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, e é habitada atualmente por cerca de 90 famílias.
O conceito de “furnas” é interessante para aprofundar o contexto e a vivência desses quilombolas sul-matogrossenses. O termo pode ser usado como sinônimo de catacumbas, algares, antros, cavernas, cavidades, covas, covis e grutas. Logo, pode ser traduzir como um local de esconderijo, que é bastante evidente para essa localidade.
A área de furnas impressiona pela beleza natural, com cachoeiras e um verde exuberante. É situada ao pé de uma serra. Certamente, o patriarca da comunidade escolheu a região também pela sensação de segurança, de esconderijo que caracteriza aquelas terras. Furnas se espraia em um vale em forma de ferradura, encravado na Serra de Maracaju ladeada de morros.
O pioneiro Dionísio Antônio Vieira foi um ex-escravizado proveniente de Minas Gerais. Chegou ao local em 1890 a procura de terras férteis para uma agricultura inicialmente de subsistência. Com a família, o fundador utilizou-se de pau-a-pique, sapê, argila e esterco de vaca para edificar a primeiras casas que vieram a dar origem a comunidade.
O solo utilizado para cultivos tem alta fertilidade natural (latossolos vermelhos escuros) e há grande abundância de água em razão da presença de córregos perenes e ribeirões que desaguam no Rio Aquidauana.
A comunidade foi titulada pela Fundação Cultural Palmares (FCP) em 2000. A certificação se deu no ano de 2000. Após a titulação e certificação do território, foi oficializado em publicação do Diário Oficial da União o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), em 2008. A Portaria de Reconhecimento do Território foi publicada no ano seguinte (nº 118, de 24 abril de 2009) e o Decreto Presidencial que declarou a área data de 20 de novembro de 2009.
Além dos efeitos da convivência com o agro, a associação de Furnas do Dionísio enfrenta outro desafio. Pelos dados de 2014, em meio a área total titulada, 75,2 hectares estava sob posse considerada ilegal de proprietários não quilombolas, impedindo o acesso à totalidade do território que é de direito legítimo dos “dionísios”.
Do ponto de vista cultural, há um esforço dos quilombolas para preservação das raízes e costumes herdados dos fundadores. Isso se traduz em hábitos como a confraternização comunitária, a dança da catira, dança do engenho novo, a capoeira, a cobrinha, rezas, quermesses e a tradicional Festa de Santo Antônio (padroeiro da comunidade).
Por ser uma das primeira comunidades quilombolas reconhecidas, furnas há mais tempo que as demais conta com alguns investimentos importantes. Desde os anos 1990, a associação tem acesso a tratores modernos, máquina para beneficiamento de arroz, engenho equipado para a fabricação de rapaduras, energia elétrica, posto telefônico e perfuração de poço artesiano.

Com apoio da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) produtores de furnas receberam formação para organizar um apiário, caminhonete. Foi construída uma ponte e instalada uma cozinha industrial na Escola Zumbi dos Palmares – nesse caso com recursos da Fundação Banco do Brasil.
Apesar desses benefícios, no tocante à saúde, os quilombolas de Furnas do Dionísio enfrentam desafios com as doenças falciforme e a hipertensão, havendo também grande incidência de derrames e doença de Chagas. Em Furnas do Dionísio há duas escolas: uma estadual e uma municipal. Ambas estão localizadas dentro do terreno da comunidade.
Invisibilidade climática
Furnas do Dionísio se insere num quadro de invisibilidade das demandas de justiça climática das comunidades quilombolas no país, que é histórica. Em 2025, lideranças nacionais questionaram a falta de inclusão coerente desse tema na pauta da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), ocorrida em novembro em Belém do Pará.
A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) em carta aberta questionou esse silenciamento e o não reconhecimento de sabedorias ancestrais e práticas sustentáveis quilombolas.
Para a coordenação, a participação de comunidades quilombolas no evento seria crucial para a efetiva construção de soluções justas e sustentáveis no Brasil. Nesse entendimento, as comunidades quilombolas reivindicaram serem respeitadas e reconhecidas como guardiãs de territórios e conhecimentos ancestrais sobre a natureza, como ocorre em Furnas do Dionísio.
A história de Furnas do Dionísio mostra que justiça climática não é um conceito abstrato — é a luta diária de comunidades negras pela preservação de seus territórios, saberes e formas de vida.
Esta reportagem foi produzida no âmbito do Programa de Fellowship para Jornalistas Negros e Negras do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC) — iniciativa que fortalece a cobertura jornalística antirracista sobre justiça climática e populações negras no Brasil.