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Mais de 62% do déficit habitacional no Brasil atinge famílias chefiadas por mulheres

Dados da Fundação João Pinheiro e estudo da Habitat para a Humanidade Brasil evidenciam desigualdade estrutural no acesso à moradia
Favela do Moinho, no centro da capital de São Paulo.

Favela do Moinho, no centro da capital de São Paulo.

— Rovena Rosa/Agência Brasil

14 de março de 2026

Dados sobre moradia no Brasil revelam uma desigualdade estrutural ainda pouco visível no debate público: 62,6% das famílias em situação de déficit habitacional no Brasil são chefiadas por mulheres. O país registra atualmente 5,97 milhões de domicílios em déficit e outros 27,6 milhões com algum tipo de inadequação habitacional, como infraestrutura precária, adensamento excessivo ou insegurança fundiária, segundo a Fundação João Pinheiro.

A desigualdade se agrava quando analisada sob o recorte racial. Levantamento da Habitat para a Humanidade Brasil aponta que mulheres negras podem levar até sete gerações — o equivalente a 184 anos — para conquistar a casa própria.

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A estimativa considera um cenário extremamente restritivo: que essa mulher apenas se desloque para o trabalho, pague aluguel, se alimente e sustente um filho, sem qualquer gasto com lazer, emergências ou períodos de desemprego, além de contar com rede de apoio gratuita e vaga pública para a criança.

Mesmo nesse contexto hipotético e favorável, restariam, em média, R$ 31,62 por mês para poupança. Para adquirir um imóvel em uma favela brasileira, cujo valor médio é de R$ 69.828,57, seriam necessários 184 anos. Ou seja, ainda que mantivesse renda estável ao longo de toda a vida, essa mulher morreria sem conseguir comprar sua casa.

“Quando um levantamento mostra que mulheres negras podem levar quase dois séculos para conquistar a casa própria, estamos diante de uma desigualdade intergeracional e estrutural — não de uma questão de conquista individual”, afirma Raquel Ludermir, gerente de Incidência em Políticas Públicas da Habitat para a Humanidade Brasil.

Além de representar um desafio econômico, a moradia adequada é fator determinante para autonomia e segurança. Especialistas destacam que a precariedade habitacional pode ampliar a vulnerabilidade à violência, limitar oportunidades de mobilidade social e reforçar ciclos de pobreza, especialmente entre mulheres responsáveis pelo sustento familiar.

Para a organização, incorporar o recorte de gênero às políticas habitacionais é fundamental para enfrentar a desigualdade estrutural no país. Priorizar mulheres chefes de família em programas de acesso à moradia, ampliar o crédito habitacional e fortalecer iniciativas de regularização fundiária são medidas que podem contribuir para reduzir disparidades e promover maior justiça social.

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