A luta por moradia digna e o impacto da crise climática em Curitiba têm rosto, classe e gênero bem definidos: mulheres, em sua maioria racializadas e com papel determinante na renda de seus lares. Esta desigualdade estrutural onera, em primeira linha, aquelas concentradas em periferias, ocupações informais e na invisibilidade da vida em situação de rua. Não são apenas números; são nomes e vivências que dão corpo à estatística das 90 mil famílias que compõem o déficit habitacional da cidade, conforme levantamento atualizado pela Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar).
A falta de habitação empurra essa população para margens de rios, encostas ou terrenos suscetíveis a alagamentos. Neste território precário, a injustiça climática não se resume a uma teoria acadêmica; é uma realidade que amplifica a desigualdade em incêndios e inundações que atingem o tecido urbano de forma seletiva.
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Um estudo do dossiê “Crise climática, cidades e reforma urbana” revelou a dimensão dessa exclusão: no período de 2017 a 2022, apenas 10% das moradias informais possuíam vias com CEP. Esta falha mina a eficiência dos mecanismos de alerta governamentais, como os avisos de desastres por SMS, uma ferramenta de gestão de riscos para amenizar a vulnerabilidade em cenário de emergências. No período do estudo citado, o bairro Parolin já demonstrava essa fragilidade: com 1.195 domicílios em área de risco, somente 16 celulares estavam cadastrados para receber alertas.
A moradia, constitucionalmente amparada, configura parte essencial do mínimo existencial. Sem esse alicerce, o acesso aos demais direitos sociais (saúde, segurança e vida) é irremediavelmente comprometido. As organizações comunitárias, frequentemente lideradas por mulheres, demonstram capacidade de organização para atuar na lacuna deixada pelo Estado.
No entanto, as condições insalubres de moradia representam um chamado à não romantização desse esforço de superação. Pelo contrário, demanda que o Estado se responsabilize integralmente por essa agenda, articulando políticas que garantam como direito básico o que, para milhares de famílias na capital, ainda permanece como um sonho inatingível: o desejo de morar dignamente.
Território suspenso: onde a formalidade do logradouro sucumbe à falência da infraestrutura
No Parolin, periferia situada a apenas três quilômetros do centro de Curitiba, a diarista e cabeleireira Andreia de Lima, 49 anos, mede a chuva pela altura da água que invade sua casa. Andreia possui um endereço fixo, com CEP devidamente registrado, mas a formalidade do logradouro não garantiu o mínimo de estrutura urbana. Mulher negra de pele retinta, Andreia se reconhece como uma transformadora social.
Em sua rotina, a organização comunitária é a única ferramenta de mitigação: sempre que os alertas da Defesa Civil indicam risco de temporal, ela repete o mesmo procedimento: decide o que salvar, levantando móveis, protegendo os animais e mantendo contato com vizinhos por grupos de mensagens. “A gente se prepara para perder menos”, resume.
As inundações no bairro são recorrentes e se deve ao fato de o Parolin estar localizado na bacia do Rio Vila Guaíra. Sem um sistema de drenagem eficiente, a combinação entre excesso de chuva e carência de obras estruturais transforma episódios comuns em ameaças recorrentes. “Não é a chuva que destrói a casa. É a forma como a cidade escolhe quem tem direito a viver com segurança”, afirma Andréia, que passou a documentar e mobilizar a comunidade.
Mesmo sem crianças em casa, ela acompanha os impactos causados pelas enchentes nas famílias da vizinhança. O dilema da segurança se estende à educação: quando a escola fecha por risco de cheias, as crianças voltam para casas igualmente expostas.“Eles dizem que mandam as crianças para casa por segurança. Mas se a escola alaga, a casa também. Onde é seguro quando a chuva vem?”, questiona.

No Parolin, alagamentos são recorrentes apesar de notícias institucionais da prefeitura que anunciam obras contra enchentes. Só em 2017, o município divulgou investimentos de R$ 121 milhões. Os recursos vieram do Ministério das Cidades, por meio do PAC II (Programa de Aceleração do Crescimento, eixo de Gestão de Riscos e Desastres Naturais) para financiar grandes obras de infraestrutura urbana, como drenagem e contenção de encostas. Embora a finalidade fosse prevenir transtornos, ano após ano o cenário se repete com a chegada das chuvas.
Em fevereiro de 2025, após uma tempestade que despejou 40,8 mm de chuva em apenas uma hora, o prefeito Eduardo Pimentel (PSD) visitou a região. Em vídeo oficial, ele anunciou a limpeza do Rio Vila Guaíra e atribuiu parte dos problemas à suposta danificação de uma obra de macrodrenagem em andamento, classificando o caso como vandalismo e pedindo que a população evite jogar lixo nos rios. No entanto, a atribuição de vandalismo e lixo é contraposta pela análise de urbanistas, que apontam a ausência de um sistema robusto de drenagem em uma área de bacia hidrográfica como a causa estrutural das inundações recorrentes.
Questionada pela reportagem, a Prefeitura de Curitiba, por meio da Secretaria Municipal de Obras Públicas (SMOP), defendeu que o Parolin é uma “área naturalmente sensível”, sujeita a alagamentos devido à geologia, topografia e impermeabilização do solo, agravadas pelas ocupações irregulares nas margens, e que as intervenções devem ser compreendidas como medidas mitigadoras.
Moradia precária como efeito cascata de direitos
A 18 quilômetros de distância do Parolin, a precariedade assume outras dimensões, mas mantém o gênero na linha de frente do impacto. É na Vila União, no Tatuquara, que a história de Daniele, 30 anos, curitibana de traços negros e indígenas, revela a ineficácia do poder público na entrega de serviços essenciais. Ao contrário de Andreia, que reside em um logradouro com precariedades, mas formalmente reconhecido, Daniele é moradora de uma ocupação; sua vulnerabilidade, portanto, sequer consta no mapa de demandas do município.
Ela divide uma estrutura habitacional improvisada com os dois filhos. Chefe de família, sofre com goteiras e vê a ida dos menores à escola suspensa quando a rua sem calçamento fica intransitável diante dos volumes de chuva.
A falta de estrutura desencadeia um efeito cascata que atinge diretamente a renda e o acesso à educação. Esse ônus é compartilhado entre as moradoras: Ketlhin, 31 anos, diarista e vizinha de Daniele, resume o dilema: “Às vezes falta caderno, mochila. Se não fosse a rede de apoio, eu não sei com o que os nossos filhos iriam estudar”.
Elas contam da campanha realizada na comunidade para levantar itens necessários. Além do material escolar, o acesso à educação infantil ainda enfrenta entraves. Segundo dados de 2024 da Defensoria Pública do Estado, cerca de 11 mil crianças em Curitiba aguardam por vagas em creches. A instituição afirma que muitas mães, especialmente mães solo como Daniele e Ketlhin, dependem do serviço para trabalhar e garantir o sustento da casa e, para elas, as vulnerabilidades chegam encadeadas: a falta de creche impede o acesso ao trabalho, o que compromete a renda; a renda baixa inviabiliza a moradia segura.
O ciclo se fecha na moradia precária, que não oferece condições mínimas de conforto nem diante das temperaturas extremas em Curitiba, uma das capitais mais frias do país. A vida de Daniele é um testemunho da vulnerabilidade: quando a inundação se anuncia, a única estratégia é a imobilidade. “Tem goteira aqui tudo, a gente senta na cama e, juntos, ficamos imóveis esperando a chuva passar”,conta. Ela explica que a água alcança cada ponto da residência. O fogão, de lenha, e o banheiro, que não é totalmente coberto, ficam interditados, limitando até as funções mais básicas da família.
Essa precariedade levou Daniele a se inscrever em um sorteio da TETO, que constrói moradias emergenciais, mas sua inscrição foi desconsiderada por não cumprir o tempo mínimo de residência exigido. “Disseram que eu não fui sorteada porque não fazia um ano que morava aqui. E como a casa já tinha sido cadastrada por outra pessoa antes, eu não podia ganhar”, explica.
Para ela, a rotatividade de famílias em busca de abrigos com menos riscos de esgotos a céu aberto impede que muitas delas, especialmente aquelas com crianças, se enquadrem nas regras de apoio. Iniciativas como a do TETO, embora importantes, são paliativas e não resolvem a escala do déficit habitacional.
Essa vulnerabilidade motivou a articulação da Frente de Organização dos Trabalhadores (FORT). O movimento, que reúne lideranças populares e tem presença majoritária de mulheres, defende políticas públicas efetivas de habitação e a inclusão das áreas no processo de regularização fundiária. Duas dessas ocupações são Vila União e Pontarola, marcadas pela luta contínua contra a insegurança territorial.
Em 2024, após a Marcha Popular do Tatuquara, representantes da Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar) e da administração regional voltaram a visitar Vila União e Pontarola. O retorno dessas visitas é interpretado pelos movimentos como sinal de abertura ao diálogo, ainda que limitado. Pedro Carrano, que integra a coordenação da FORT, avalia: “Os movimentos avaliam que, nas últimas duas gestões, a Prefeitura de Curitiba se omitiu, não participou das mediações e manteve uma postura ineficaz por meio da Cohab, permitindo que os despejos continuassem. A princípio, agora parece haver uma mudança de postura”.
É com esse histórico de negação que a organização acompanha as promessas da nova gestão. A Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2025 reservou R$ 182 milhões para habitação de interesse social, e o prefeito Eduardo Pimentel anunciou a construção de 20 mil habitações populares. A expectativa da FORT é que essas moradias atendam as famílias em alto grau de vulnerabilidade. No entanto, a comunidade alerta que segue em vigilância e construindo a luta pela regularização fundiária.

A rua como multiplicador de exclusão e necropolítica
A jornada de Edneia, mulher negra, de cabelo crespo e 59 anos, ilustra a fronteira mais dura da crise habitacional. Em um espectro de exclusão que começa com a precariedade reconhecida (como a de Andreia) e passa pelo território não oficial (como a de Daniele), a vida de Edneia representa a ausência completa de direitos formais.
Curitibana, sua infância foi marcada pela desestruturação familiar: a mãe, vítima do alcoolismo, não pôde criá-la. Edneia entrou em um orfanato aos dois anos, em 1968, e só saiu aos 16. Ela relata que, nas tentativas de adoção, a função logo mudava:“As pessoas não me adotavam como filha. Me tiravam do orfanato como se fosse, mas em casa eu virava empregada”.
Sem ter para onde ir ao completar a maioridade, Edneia foi morar na rua. Aos 18 anos, foi vítima de estupro, uma violência rotineira para mulheres nessa condição. Para sobreviver, começou a prestar serviços domésticos e, mais tarde, atuou como catadora de material reciclável. Ao engravidar do primeiro filho, buscou abrigo onde funcionava um antigo depósito de lixo, no limite entre Curitiba e Almirante Tamandaré. A região, parte da periferia metropolitana, recebeu toneladas de resíduos sólidos entre 1964 e 1989. A pedreira desativada ainda abriga sob o solo cerca de 810 mil metros cúbicos de lixo. Pesquisadores alertam para a instabilidade do local.
Este é um dos aspectos do racismo ambiental que marcam a trajetória de Edneia: ela e outras famílias construíram moradias precárias perto do gás natural que emanava do subsolo. “A gente buscava montar a moradia perto da área do gás. Era uma forma de se proteger do frio. Nossa vida foi sempre no improviso. Somos o improviso.”
Nesse ambiente de vulnerabilidade extrema, Edneia buscou organização na luta por moradia. Com dois filhos pequenos, ela participou de ocupações que, posteriormente, se tornaram o bairro Jardim Kosmos, hoje regularizado, e morou em áreas como o Morro do Piolho, cuja lembrança é acompanhada com riso. Ao relatar a rua e as dificuldades de banho, alimentação e convivência, descreve como as noites se tornaram estratégicas para amenizar os efeitos das baixas temperaturas, buscando o calor da proximidade humana: “Em Curitiba, normalmente se dorme em grupo para esquentar. Igual rato”.
Mesmo depois de sair dessa situação, o estigma permanece. “Já saí da rua faz dez anos, mas ainda tem gente que me trata como se eu estivesse nela.” Uma vez estabilizada na cidade, ela direcionou sua experiência para a organização política e consolidou sua militância em iniciativas como o grupo Guardiões dos Direitos Humanos e o movimento Mulheres em Situação de Rua do Paraná. Para ela, o ativismo é indissociável da realidade racial: “Para mulheres negras é muito diferente estar na rua. Não somos vistas como nascidas de Curitiba. Parece que aqui não tem gente preta e pobre. É tratado sempre como de fora, aqui também tem”.
É com base nessa experiência de vida que Edneia defende o programa Moradia Primeiro, um modelo que busca oferecer moradia direta e apoio técnico. O programa chegou a ser implementado por meio de uma parceria entre movimentos sociais e a arquidiocese, mas não teve adesão da municipal. Sobre isso, a Prefeitura de Curitiba afirma manter cinco hotéis sociais para acolhimento da população em situação de rua, embora o atendimento não seja suficiente diante da crise.
Os números da justiça climática revelam o custo dessa ineficácia: segundo o Observatório Estadual de Direitos Humanos da População em Situação de Rua, de duas a cinco pessoas desse grupo morrem de frio, por ano, em Curitiba, e esse total pode ser maior, já que nem sempre as causas são oficialmente reconhecidas. A alta nos aluguéis e a falta de políticas habitacionais eficazes, como o Moradia Primeiro e a regulamentação do uso social da propriedade, têm empurrado famílias para esse cenário.
Entre as pessoas sem moradia, as negras enfrentam o agravamento das vulnerabilidades históricas. Mesmo em uma cidade de maioria branca, o racismo estrutural se manifesta no acesso desigual à moradia, aos serviços públicos e ao trabalho.
“É possível dizer que a interação entre a crise da habitação, a negação do direito à moradia e a degradação do meio ambiente intensifica a vulnerabilidade social e revela uma forma de necropolítica”, afirma Rodrigo Alvarenga, coordenador do Observatório. Para ele, a omissão do Estado cria um ambiente em que algumas vidas, sobretudo as marcadas pela pobreza e pela cor da pele, se tornam descartáveis.

A vida em territórios suspensos na geografia da desigualdade urbana
As trajetórias de Andreia, Daniele e Edneia, marcadas por despejos, moradia improvisada e ausência de infraestrutura, são a realidade camuflada pela narrativa oficial de Curitiba. Elas refletem a seletividade das políticas urbanas e a omissão de dados que contestam o cartão postal de inovação. A urbanista e pesquisadora Tainá de Paula defende que essa exclusão está diretamente ligada ao racismo ambiental, uma assimetria das vulnerabilidades. Em Curitiba, essa fragilidade, evidenciada pela crise climática, é multiplicadora do perigo.
A análise dos movimentos sociais e de especialistas aponta que reverter a negação de moradia, espaço urbano e direito a um meio ambiente equilibrado exige uma agenda que vá além da engenharia e do mercado imobiliário. É preciso um compromisso público com políticas que sejam, simultaneamente, interseccionais e transversais. A moradia, nesse contexto, precisa ser reconhecida como o pilar que garante outros direitos essenciais, já que grande parte do acesso a estes serviços é condicionado à existência de um endereço fixo.
O território suspenso só pode ser integrado quando a gestão pública absorve o desafio de planejar a cidade para toda a sua população, considerando a diversidade de povos, culturas e vulnerabilidades que a compõem. A agenda de políticas públicas necessita ser pensada de forma interconectada, rompendo com o ciclo de negação. No final do dia, uma cidade só é verdadeiramente inteligente e sustentável se esse reconhecimento for validado pela ótica das diferentes realidades de quem nela habita.
Esta reportagem foi produzida no âmbito do Programa de Fellowship para Jornalistas Negros e Negras do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC) — iniciativa que fortalece a cobertura jornalística antirracista sobre justiça climática e populações negras no Brasil.