Um novo caso de blackface ganhou repercussão nesta semana, quando a deputada estadual Fabiana de Lima Barroso (PL), conhecida como Fabiana Bolsonaro, foi ao Plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e pintou o rosto e os braços de marrom.
O ato, na tarde da quarta-feira (18), teve como objetivo atacar a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), recém eleita para presidir a Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados.
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Além de se pintar de marrom, Fabiana questionou a legitimidade de pessoas trans e perguntou se ao pintar sua pele se tornaria uma mulher negra.
O que é blackface?
Blackface é o ato no qual pessoas brancas pintam a pele de tinta escura a fim de imitar e estereotipar traços de pessoas negras de forma exagerada e com conotação jocosa.
Com origens nos Estados Unidos e Europa, no século 19, a prática se aproveitava da ausência de pessoas não brancas em papéis de destaque — assim como nas demais posições sociais — para se caracterizar como negros e zombar da cultura afrodiaspórica.
Além da pintura, as fantasias incluíam lábios grosseiros, olhar infantilizado e perucas que representavam cabelos texturizados como feios.
Nos EUA, o movimento utilizava as lutas por direitos civis da população negra como forma de entretenimento para a audiência branca.
As representações racistas perpetuaram narrativas estereotipadas que legitimaram a inferiorização sistemática de homens e mulheres negras na sociedade, de forma extremamente discriminatória. A imitação também buscava reforçar o imaginário da branquitude em relação aos negros.
O blackface no Brasil
A prática do blackface não se limitou aos países do Norte global e foi enraizada na dramaturgia e no entretenimento brasileiro. Na peça “Adão e Eva”, de maio de 1917, uma mulher branca pintada de preto representa a personagem negra África. Seu vestido de contas exibia mais o corpo do que os demais figurinos.
Em 1944, o Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado por Abdias do Nascimento, já denunciava o gesto entre os palcos brasileiros, que, mesmo décadas depois, ainda reservavam o protagonismo para os brancos.
Passados 68 anos, em 2012, o programa “Zorra Total”, da TV Globo, exibia em rede nacional a personagem Adelaide, uma mulher negra retinta, retratada como de origem humilde, com problemas dentários e traços negróides. O papel foi interpretado pelo ator Rodrigo Sant’Anna.
À época, a Ouvidoria Nacional da Igualdade Racial recebeu inúmeras denúncias sobre o caso, que chegou a ser investigado pela 19ª Promotoria de Investigação Penal do Rio de Janeiro.
O “Africano”, personagem de Eduardo Sterblitch no “Pânico na Band”, também foi denunciado à Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, órgão do governo federal. Para o papel, o humorista utilizou uma tinta escura e uma malha preta por todo o corpo, enquanto imitava um animal.
Em todos os momentos citados, os casos de blackface foram amplamente denunciados pela comunidade negra e por organizações de defesa dos direitos humanos.
Embora a prática de blackface seja cada vez mais rejeitada publicamente no Brasil, ainda não há uma legislação específica que a criminalize, podendo ser enquadrada pela Lei do Racismo (nº 7.716/1989) caso o juiz entenda como tal.