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Racismo no futebol feminino é ‘ainda mais perverso’ e falta punição

A medida que a modalidade cresce, os casos de discriminação racial tomam conta dos estádios

Texto: Aline Bernardes | Edição: Nataly Simões | Imagem: Nathi de Souza

Ilustração mostra jogadora negra de futebol feminino chutando bola.

Foto: Imagem: Nathi de Souza

Alma Preta

28 de julho de 2023

O racismo no esporte brasileiro bem como no futebol feminino é fruto da herança escravagista e colonialista que aqui existiu, de acordo com a análise de Marcelo Carvalho, diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

No início de 1894, o futebol chegou ao Brasil através dos estudantes de classe social mais alta. Era elitista e praticado por clubes de engenheiros e técnicos ingleses, sem espaço para os cidadãos negros e pobres.

“Com o tempo houve a inclusão de pessoas negras nesse esporte, muito mais pelo talento e nunca com a preocupação e os cuidados com o racismo”, destaca Carvalho.

Quando o assunto é posto em alguma mesa de bar ou roda de conversa, vários exemplos são facilmente lembrados. Como esquecer as bananas jogadas em campo para diferentes jogadores ou de um estádio inteiro gritando a plenos pulmões a palavra “macaco” para o Vini. Jr? Mas será que casos de discriminação racial estão presentes apenas no futebol masculino?

Racismo no futebol brasileiro e no futebol feminino

O Brasil passou por um aumento significativo no número de ocorrências de racismo nos estádios, de acordo com o último levantamento elaborado pelo Observatório da Discriminação Racial do Futebol. Em 2021, o observatório registrou 64 casos de racismo, já em 2022 houve um crescimento de 40% dos episódios.

Alguns dos casos aconteceram no futebol feminino, que para Marcelo Carvalho é ainda mais perverso já que tem menos espaço e existe um silenciamento ainda maior do que no masculino. “Há um receio grande das atletas denunciarem esse racismo com medo das portas fecharem”, afirma.

A Alma Preta Jornalismo separou alguns dos casos mais recentes de racismo no futebol feminino:

Durante uma partida do Candangão Feminino, realizada no dia 13 de novembro de 2021, entre os clubes Cresspom e Aruc, a jogadora Thamires da Conceição, mais conhecida como Buga, sofreu ataques racistas de um torcedor do time rival. Buga relatou na época que o torcedor teceu comentários racistas contra ela, além de proferir xingamentos às demais integrantes do time.

No dia 16 de novembro, do mesmo ano, durante uma partida da Semifinal da Libertadores Feminina entre Corinthians e Nacional do Uruguai, a atacante Adriana também foi vítima de racismo ao ser chamada de “macaca” por uma jogadora da equipe uruguaia.

Em 4 de julho de 2022, Natasha do Nascimento, atacante do Doce Mel, da Bahia, relatou gritos racistas da torcida na partida contra o Sport, na Ilha do Retiro, pelas oitavas de final do Brasileiro Feminino da Série A-3. Ao final do jogo, a atleta dirigiu-se à árbitra da partida, Deborah Cecilia, e disse: “Queria relatar também que caí e tive preconceito da torcida. Me chamaram de macaca, fizeram uh uh uh.”

Por último, um torcedor do Inter foi denunciado por três jogadoras do Grêmio durante o Gre-Nal feminino, realizado na manhã do dia 2 de novembro de 2022. Segundo a assessoria do Grêmio, o indivíduo teria proferido a frase “estou precisando de um desse para fazer espanador em casa” direcionada à atacante Luany, em referência ao cabelo da jogadora.

Para Marcelo Carvalho, apesar de todo o movimento da luta por espaços das chamadas minorias (negros, mulheres, comunidade LGBTQIA+, entre outros), a impunidade que ainda cerca esses criminosos pode paralisar as atletas. Para ele, “é preciso montar uma rede de proteção e acolhimento para que elas não se sintam sozinhas, e sim acolhidas”.

A luta antirracista no futebol

Carvalho defende que a principal medida para o combate ao racismo seja a punição aos autores das ofensas. “A partir disso, o atleta vai se sentir mais seguro, principalmente para denunciar os casos. Se a gente olha para o futebol brasileiro, a gente vai perceber que, nos últimos anos, muitos casos de racismo têm sido denunciados pelos próprios atletas. Isso é muito novo no futebol brasileiro”, avalia.

Representantes do governo federal, da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), de entidades da sociedade civil e ex-jogadores participaram, no dia 26 de junho de 2023, de uma audiência pública no Senado para discutir os frequentes casos de racismo no futebol.

O gerente de desenvolvimento de projetos da CBF, Ricardo Leão, afirmou que a entidade não consegue agir “sozinha” para coibir casos de racismo. “É fundamental a coordenação, a integração, com outros agentes. A CBF, sozinha, não consegue resolver o problema do racismo. A gente precisa da cooperação com o setor público, com o setor privado e com a sociedade civil para que as iniciativas propostas possam ser implementadas”, resumiu.

Para Marcelo, do Observatório, a CBF ainda tem um olhar muito novo sobre o assunto e que começou a se modificar a partir de 2018, 2019. “Estamos vendo as entidades cada vez mais preocupadas, seja pela questão financeira, seja pela questão da cobrança dos torcedores, mas ainda é algo muito incipiente”, pontuou.

O diretor defende ainda que há muitos erros nesse processo, mas, há mudanças em curso. “A partir do primeiro passo a gente consegue dar o segundo e corrigir o primeiro e cada vez mais incluir pessoas negras nesses espaços de gestão e comando, que é, sem dúvida, o grande tabu que a gente precisa quebrar”.

Alma Preta

A Alma Preta é uma agência de notícias e comunicação especializada na temática étino-racial no Brasil.

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