PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Filme mostra como a ditadura militar separou famílias indígenas

Documentário reconstrói a trajetória de Sueli e Maiza em busca do reencontro com seu pai, separado delas há 40 anos pelas políticas do regime militar
Registro presente no documentário "YÕG ÃTAK: MEU PAI, KAIOWÁ".

Registro presente no documentário "YÕG ÃTAK: MEU PAI, KAIOWÁ".

— Divulgação

6 de julho de 2025

Estreia em 10 de julho nos cinemas brasileiros o documentário “YÕG ÃTAK: MEU PAI, KAIOWÁ”, filme indígena que retrata uma história de separação forçada durante a ditadura militar. Com direção assinada por Sueli Maxakali, Isael Maxakali, Roberto Romero e Luisa Lanna, o filme mostra a busca da diretora Sueli e sua irmã Maiza pelo pai, Luiz Kaiowá, de quem foram separadas ainda na infância pelos efeitos das políticas do regime militar.

Luiz Kaiowá, indígena guarani kaiowá, foi removido à força de seu território no sul do Mato Grosso do Sul no início dos anos 1960 por agentes do Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Após uma travessia que passou por São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, foi levado ao Posto Indígena Mariano de Oliveira, em Minas Gerais, onde viveu por mais de 15 anos entre os Tikmũ’ũn (Maxakali). Casou-se, teve duas filhas e, pouco depois do nascimento de Sueli, sofreu um novo deslocamento forçado e agora foi obrigado por agentes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) a permanecer em seu seu território de origem, o que cortou seu vínculo com a família.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

Sueli e Isael Maxakali, artistas do cinema indígena contemporâneo, vêm construindo uma linguagem própria, com filmes como “Yãmĩyhex: As Mulheres-Espírito” e “Nũhũ yãg mũ yõg hãm: Essa Terra é Nossa!”. Em 2016, a dupla fez sua primeira incursão pelas memórias da violência vivida pelos povos indígenas durante a ditadura com o documentário “GRIN – Guarda Rural Indígena”,  dirigido por Isael Maxakali e Roney Freitas. No novo filme, eles dividem a direção com Luisa Lanna, montadora e professora experiente na formação audiovisual em territórios indígenas, e de Roberto Romero, antropólogo e documentarista.

As filmagens foram realizadas tanto na Aldeia-Escola-Floresta, retomada em 2021 por 100 famílias maxakali em Minas Gerais, quanto nas Terras Indígenas Panambi-Lagoa Rica, Panambizinho e Laranjeira Ñanderu, do povo Guarani Kaiowá, em Mato Grosso do Sul – dois territórios ainda hoje marcados pelas graves violações de direitos humanos que sofreram no período militar. Essas violências, que incluem o esbulho de terras e remoções forçadas, vieram à luz em 2014, quando foi publicado o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que investigou os casos Maxakali e Guarani Kaiowá, entre outros povos. 

“A gente assistiu a um filme sobre um deputado que fala ‘Ainda estou aqui’. A gente também fala que nós também estamos aqui. O povo Maxakali, o povo Kaiowá estão aqui”, discursou Sueli Maxakali durante o Festival de Brasília. 

Lançado em um momento em que as reivindicações indígenas por memória, verdade e justiça voltam a ganhar corpo, o documentário apresenta essas narrativas do passado por meio de de longos planos fixos, gestos íntimos e câmeras que acompanham o movimento dos corpos e das falas. “O espectador aprende a ver o filme enquanto assiste”, afirma a diretora Luisa Lanna. “É um aprendizado que se dá pela escuta, pela duração dos planos, pelas formas de elaboração da palavra”.

Para a antropóloga e roteirista Tatiane Klein, que participou da articulação entre os dois territórios e que integra um fórum liderado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) sobre o tema, o filme é um exemplo de investigação e escuta das histórias da ditadura pelos próprios realizadores indígenas. “Se não nos aprofundarmos nessa memória indígena, seguindo os modos próprios de cada povo olhar para esse passado de violências,  o futuro dos Guarani Kaiowá, dos Maxakali, do Brasil indígena continuará em risco”.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • A Alma Preta é uma agência de notícias e comunicação especializada na temática étnico-racial no Brasil.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano