A experiência afetiva de pessoas negras é atravessada por diversos fatores históricos e sociais. No Brasil, último país a abolir a escravidão nas Américas, a hipersexualização, a rejeição e o abandono são estigmas que acompanham a socialização e influencia na auto percepção e autoestima. Viver numa sociedade cujo padrão aceitável é o que se aproxima da estética eurocentrada e embranquecida, os marcadores sociais de diferença moldam não só as relações, mas o acesso a recursos e oportunidades.
Em “escolher falar de amor não cessará nenhuma bomba”, Daisy Serena traz o que vivenciou em um corpo de mulher negra, mãe solo, filha adotada. Influenciada pelos movimentos spiritual jazz e free jazz, sua poesia atravessa temas urgentes com delicadeza radical: o banzo histórico da escravidão e o banzo íntimo de não conhecer sua mãe biológica; a complexidade de criar um filho branco sendo uma mulher negra; o lugar de marginalização que os afetos impõem às mulheres negras.
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O free jazz, com sua improvisação e ruptura de formas, encontra ressonância na escrita da autora: visceral, atravessada por afetos. Já o spiritual jazz, com suas raízes afro-diaspóricas e conexão com o sagrado, aparece como respiro de quem cultiva paz em meio à guerra estrutural do racismo e do abandono.
“Minha poesia também nasce de um movimento de escuta. Escuta das diásporas, do silêncio, e do banzo, essa ausência permanente. O jazz me trouxe a segurança para colocar minha voz para jogo, pela liberdade do improviso.”, diz Daisy.
Acompanhada por nomes fundamentais da produção negra contemporânea, o livro será publicado pelo selo doburro e traz prefácio de Salloma Salomão, posfácio de Tatiana Nascimento e orelha de Nathalia Grilo, compondo uma obra coletiva, expandida e politicamente enraizada. O lançamento inaugura uma série de desdobramentos do projeto, incluindo oficinas e um coquetel e o lançamento álbum-lítero-musical ao lado da Rádio Diáspora e participação da cantora franco-senegalesa Anaïs Sylla.
O projeto foi realizado com apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB); do Programa de Ação Cultural – ProAC, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo; do Ministério da Cultura e do Governo Federal.