A discussão sobre o fim da escala 6×1 resgatou elementos de uma pauta antiga do movimento trabalhista brasileiro. Para o historiador e comunicador popular Jones Manoel, a reivindicação não trata apenas de carga horária ou organização do trabalho.
Segundo ele, a pauta expõe estruturas históricas de exploração presentes no país e abre uma disputa política sobre as condições de vida da população trabalhadora.
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Em entrevista à Alma Preta, Jones afirma que o debate atual faz parte de uma trajetória iniciada ainda no século XIX, quando movimentos operários europeus passaram a reivindicar redução da jornada.
O comunicador popular, que é pré-candidato a deputado federal por Pernambuco pelo PSOL, lembra que a pauta também atravessou a história sindical brasileira e afirma que o país passou décadas sem mudanças estruturais nesse campo.
“Na prática, a jornada de trabalho no Brasil é praticamente a mesma há quase 100 anos. Durante as décadas de 1930, 40, 50, 60 e 70, o movimento operário sempre pautou a redução da jornada”, explica.
Na Constituinte de 1988, por exemplo, estava em debate a redução para 40 horas semanais, lembra Jones Manoel.
“Essa proposta era defendida pela esquerda da época: petistas, trabalhistas do PDT e comunistas. No fim, a Constituição definiu 44 horas semanais. Foi a última vez que o Brasil reduziu oficialmente a jornada de trabalho. Já são mais de 30 anos sem mudanças”, prossegue.
Para o historiador, a retomada do tema ocorreu após as eleições de 2022, mas ganhou outra dimensão com o movimento Vida Além do Trabalho (VAT), organizado por Rick Azevedo.
Ele afirma que o movimento conseguiu transformar relatos individuais de exaustão em uma pauta política nacional.
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Herança da escravidão e “superexploração”
Ao discutir as razões que explicam a força do debate atual, Jones associa as condições de trabalho no país a processos históricos anteriores ao próprio capitalismo brasileiro.
Durante a entrevista, ele recupera reflexões do sociólogo Clóvis Moura e afirma que a formação econômica nacional preservou mecanismos herdados do período escravista.
“Nós tivemos uma modernização conservadora. Na transição do escravismo tardio para o capitalismo brasileiro, a população negra seguiu ocupando um papel subalterno, marginalizado e submetido a violências e arbitrariedades”, explica.
Jones afirma que essa herança aparece na forma como o trabalho foi organizado ao longo do século XX. “Você tem no Brasil aquilo que Rui Mauro Marini chamou de superexploração da força de trabalho.”
Segundo ele, a taxa de lucro no país cresceria menos por investimento em tecnologia e mais pelo aumento da exploração sobre trabalhadores.
Críticas ao empresariado
Essa interpretação também aparece quando Jones Manoel comenta argumentos usados por setores empresariais contra a redução da jornada. Ele critica a ideia de que mudanças na carga horária causariam crise econômica ou fechamento de empresas.
“Se a sua empresa vai quebrar por causa da redução da jornada de trabalho, ela não está baseada em desenvolvimento tecnológico, investimento em pesquisa ou aumento de produtividade. Ela está baseada na exploração pura e simples da classe trabalhadora”, argumenta.
Jones diverge do formato que ganhou espaço no Congresso. O movimento VAT e a proposta construída pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), a PEC 221/2019, defendem a jornada de 36 horas semanais.
O historiador afirma considerar esse modelo insuficiente e defende a jornada de 30 horas semanais. Ele argumenta que a proposta aproximaria categorias que já atuam nesse regime, como bancários, assistentes sociais e profissionais da saúde.
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Jones também demonstra preocupação com o processo de negociação da proposta no Congresso. Ele critica a hipótese de adoção de uma escala 5×2.
“Escala 5×2? Pelo amor de Deus. Vai mudar muito pouco a realidade da classe trabalhadora brasileira”, avalia.
O custo físico da escala 6×1
Para Jones Manoel, a discussão sobre a escala 6×1 não é abstrata. Ela se traduz em corpos exaustos e tempo de vida perdido. O historiador usa a própria experiência para ilustrar o que está em jogo.
“Eu só trabalhava seis horas por dia. Mas o transporte era tão infernal, tão insalubre, que perdi a conta de quantas vezes cheguei em casa tão cansado que não conseguia nem tomar banho ou trocar de roupa. Eu simplesmente deitava na cama, dormia e só acordava no outro dia”, recorda.
Confira a entrevista completa: