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Entre a farda e o fuzil: quem protege a população do Rio de Janeiro?

O Rio de Janeiro segue como laboratório de políticas de segurança fracassadas e palco de ações eleitoreiras que transformam a morte em espetáculo
Ato público reuniu moradores, organizações da sociedade civil e movimentos sociais contra a violência policial no Rio de Janeiro, em 31 de outubro de 2025.

Ato público reuniu moradores, organizações da sociedade civil e movimentos sociais contra a violência policial no Rio de Janeiro, em 31 de outubro de 2025.

— Divulgação/Jakeline Oliver

28 de março de 2026

Não é novidade para ninguém que o rastro de morte deixado pela polícia na cidade do Rio de Janeiro tem CEP. Convenhamos: qualquer carioca sabe que, a depender da cor da pele, da classe social e da região onde mora, a força policial pode “confundi-lo(a)” e tirar sua vida em segundos. Casos recentes não são acaso, mas parte de uma rotina de ações desastrosas, cujo “efeito colateral” tem sido o assassinato de inocentes e o justiçamento cotidiano, transformando a atuação policial em verdadeiros tribunais de morte.

O caso da médica Andréa Marins Dias e do ajudante de cozinha Leandro Silva Souza são expressões contundentes da insegurança pública no estado. Nas periferias, o medo não tem direção única: ele vem tanto das facções criminosas quanto da própria polícia. A qualquer momento, um ou outro pode tirar vidas — muitas vezes, sem qualquer responsabilização.

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É preciso dizer com todas as letras: frequentemente, resta apenas chorar os mortos e torcer para que a tragédia não atravesse a nossa porta. A punição em casos de violência policial não parece ser a vocação da Justiça no Rio de Janeiro. Mais de 90% das investigações contra policiais são arquivadas pelo Ministério Público, segundo levantamento da jornalista Amanda Audi, da Agência Pública, com base em dados oficiais entre 2011 e 2023.

Na prática, isso significa que a maioria das vítimas se transforma em estatística, mesmo quando suas famílias lutam por justiça. Nesse contexto, a violência policial encontra terreno fértil na percepção de impunidade e na proteção institucional. Esse apoio, no entanto, não se restringe ao Estado. Parte da população também legitima operações policiais violentas.

Pesquisa do Instituto Genial/Quaest, realizada em 2025, apontou que 64% dos entrevistados apoiaram uma operação que resultou na morte de 121 pessoas nos complexos do Alemão e da Penha. A aprovação foi maior entre pessoas com renda entre dois e cinco salários mínimos, mas também alcança 58% entre os que recebem até dois salários. Entre aqueles com menor escolaridade, o índice chega a 67%, enquanto entre pessoas com ensino superior cai para 59%.

Nesse universo descrito pela pesquisa não é possível ignorar que entre os que apoiam essas ações estão moradores de favelas, pessoas pobres, homens e mulheres negros — justamente aqueles que mais sofrem com essa política de segurança. Não por acaso, 86% dos mortos em ações policiais no Rio de Janeiro são pessoas negras.

O que explica esse aparente paradoxo? Estaríamos diante de uma espécie de “síndrome de Estocolmo” social, em que o violentado passa a aderir à lógica do violentador? Ou essa adesão é fruto de uma construção midiática e institucional que exalta a ação policial e relativiza seus impactos? Ou, ainda, seria expressão de um sentimento difuso de que a violência extrema é o único caminho possível para conter o avanço do crime organizado?
Não há respostas simples.

Parte desse apoio parece emergir das experiências concretas vividas nas periferias, onde o cotidiano é atravessado por restrições impostas pelo crime organizado. A imagem romantizada de um “bandido” que convive em harmonia com moradores já não corresponde à realidade. A atuação dessas organizações é marcada por práticas violentas que também produzem medo, controle e sofrimento.

Nesse cenário, a tragédia opera em duas frentes e molda percepções: quando a violência parte do Estado, evidencia-se o descontrole policial; quando vem das facções, escancara-se a ausência de proteção institucional e as limitações impostas à vida nos territórios. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: medo, luto e naturalização da morte.

Compreender esse contexto não significa, em hipótese alguma, justificar a violência estatal. Ao contrário, trata-se de reconhecer a complexidade da posição de quem vive nesses territórios e, ainda assim, apoia operações letais — mesmo sabendo que, cedo ou tarde, pode se tornar vítima delas.

O problema é que não há, no horizonte próximo, sinais consistentes de mudança. O Rio de Janeiro segue como laboratório de políticas de segurança fracassadas e palco de ações eleitoreiras que transformam a morte em espetáculo — e, não raramente, em capital político. Estratégias que pouco contribuem para a redução da violência, mas que seguem rendendo votos.

Como alertava Steve Biko, “estamos por nossa própria conta”. No Rio de Janeiro, essa constatação não é apenas uma reflexão política — é uma experiência cotidiana da população pobre e negra.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Rogério José é graduado, mestre e doutor em História pelo PPGHC-UFRJ. Sua trajetória acadêmica e suas publicações estão ancoradas na investigação das relações raciais, das religiosidades e das experiências da juventude no Brasil contemporâneo.

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