No YouTube circula um vídeo com mais de 2 milhões de visualizações sobre uma enigmática “tribo” africana amplamente fotografada por uma cineasta alemã fascista e racista. A história “da tribo” no vídeo está incompleta, pois é muito mais antiga do que o genocídio atual no Sudão, gerado, aliás, pelo colonialismo, pelo extrativismo e pela geopolítica dos Estados-nação.
Pesquisadores como Cheikh Anta Diop chegam a traçar essas sociedades até o Reino de Kush e Kemet por meio da linguística, das estruturas sociais e dos objetos culturais. Assim como esse, circulam nas redes sociais inúmeros vídeos que promovem o “turismo etnográfico” ou “turismo tribal”.
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A dinâmica costuma ser a mesma: uma pessoa branca com uma câmera adentra o território e grava tudo o que encontra, incluindo membros dessa “tribo” (especialmente crianças), infraestrutura, animais, comida e paisagens. Além disso, entram nas casas e nos espaços íntimos.
Os vídeos geralmente vêm carregados de “explicações” que emulam aquelas dadas pela antropologia e outras ciências sociais nos séculos XIX e XX, usando de maneira pouco clara conceitos como: raça, etnia, tribo, animismo, totemismo, primitivismo, etc. Algumas pessoas que participam dessa prática se apresentam como “especialistas em tribos do mundo”.
A pergunta é: esses “turistas” ou etnógrafos amadores fariam exatamente o mesmo nas ruas de Paris, Amsterdã ou em um vilarejo remoto da Alemanha? Qual é a diferença entre fazer turismo na Europa e fazer turismo em territórios habitados por pessoas racializadas?
O turismo tribal costuma se apresentar como benéfico e como uma alternativa de desenvolvimento para as comunidades visitadas, proporcionando espaços de encontro e educação para os visitantes. No entanto, é inevitável perguntar: como funcionam as redes de turismo tribal e quais são os atores envolvidos nessa rede? Como operam os fluxos de turistas, capital e “conhecimento” na rede? Como exatamente as comunidades visitadas se beneficiam e que indicadores existem para avaliar esse benefício? E a pergunta mais incômoda: o turismo tribal se sustenta na colonialidade?

Existem geografias imaginárias do discurso colonial (conceito dos movimentos e do pensamento decolonial) ligadas ao eurocentrismo, isto é, à ideia de que existe uma cultura e civilização europeia superior e sua continuidade em um “Ocidente”, com uma história universal que todas as outras sociedades devem emular.
Nesse sentido, o tempo linear se espacializa; ou seja, acredita-se que o Ocidente está no presente (ou no futuro, dependendo do ponto de vista) e o resto do mundo está no passado. Como consequência, não resta alternativa senão seguir a trajetória histórica para alcançar a “civilização ocidental”.
Pessoas como Silvia Rivera Cusicanqui, Edward Said, Valentin Yves Mudimbe, Lélia Gonzalez, Frantz Fanon, Aimé Césaire, Katiúscia Ribeiro, entre muitas outras, demonstraram que o conhecimento sobre pessoas e territórios racializados e colonizados não é neutro. Está carregado de eurocentrismo e de uma marcação do “não ocidental” como não civilizado, atrasado, subordinado, selvagem e sub-humano. Isso tem justificado o colonialismo, a exploração e o extrativismo em detrimento das condições de vida das populações.
O que ocorre com a prática do turismo tribal não é nada novo, mas sim uma continuidade na construção de uma imagem do não branco. Por exemplo, cientistas sociais no século XX argumentavam que os povos habitantes do Kalahari eram suficientemente “primitivos” para nos oferecer uma janela para a humanidade do passado. Todos queriam (e ainda querem) ir ver como era a humanidade “primitiva”.
No entanto, desconheciam e ainda desconhecem que essas pessoas não se encontram em nenhum passado, mas são tão contemporâneas quanto qualquer outra. Isso oculta a colonialidade do saber e do ser ao inscrever corpos e territórios racializados na lógica de dominação do Ocidente.
Da mesma forma, na Amazônia e em outras regiões do mundo, há quem adentre com câmeras buscando ativamente exibir povos em isolamento voluntário. A motivação? O sensacionalismo, as visualizações e os “likes”. Inclusive, há missionários religiosos que aproveitam para “evangelizar”, em outras palavras: “civilizar”.

Em todo o Sul Global há uma mobilização de pessoas que se privilegiam economicamente e constroem sua identidade racial à custa de construir a imagem do “outro selvagem”. Isso faz parte do mesmo entrelaçamento da pornomiseria, mas com o componente racial.
Grande parte dessa prática está sendo realizada em lugares marcados pela desigualdade, pela violência e pelo horror necropolítico, seguindo o conceito de Achille Mbembe. As pessoas que a realizam veem o mundo como seu zoológico pessoal.
A imagem dos corpos marcados como não brancos, primitivos, como aquilo que não tem história, fetichizado ou como objetos de exibição continua sendo usada para reforçar a imagem de um sistema-mundo em que o Norte dita as regras de quem pode ser exibido, ridicularizado e dominado.
O turismo tribal e sua expressão carnal nas redes sociais são uma continuidade das intrusões daquelas pessoas que se autodenominam exploradores, voluntários, conquistadores, civilizadores, missionários, descobridores, cientistas etc.; é a continuidade do exibicionismo ao qual foram submetidas as pessoas escravizadas e exploradas no Sul Global e nos zoológicos humanos; a mesma que permite violações dos direitos das pessoas nesses territórios sob o pretexto de que são selvagens e precisam da civilização ou de uma mão branca que as salve de sua miséria. Enfim, é a continuidade das geografias imaginárias do discurso colonial.