Por: Lucinha Silva e Marcos Martins Amaral
Quando falamos em Bem Viver, não estamos nos referindo a um conceito novo para as mulheres negras. Ele pode ganhar novos nomes e formas, mas a essência da ideia já está presente nas formas como as nossas mães, avós e bisavós sempre cuidaram da reprodução da vida. São mulheres que organizaram redes de solidariedade nos terreiros, nas cozinhas comunitárias, nas casas de parteiras, nas associações de bairro; mulheres que sustentaram a vida apesar do racismo, do sexismo e da pobreza.
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Essas formas de existência coletiva e de resistência cotidiana articulam o cuidado com a comunidade, a defesa da dignidade, a relação com a natureza e os ciclos da vida. É nesse lugar que reconhecemos o Bem Viver como uma construção histórica das mulheres negras.
São práticas que têm a ver com a manutenção da vida mesmo diante da violência cotidiana, sem perder de vista a invenção de mundos possíveis, onde a liberdade, o afeto e a justiça são princípios.
Em muitas comunidades construídas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), o Bem Viver se materializa no cultivo da terra, na partilha do alimento, na construção de escolas e centros de saúde, nas festas populares e nas formas coletivas de tomada de decisão. As mulheres negras assentadas, em especial, têm protagonizado experiências que integram a agroecologia, educação popular e cuidado com os territórios e com as pessoas. Ali, cuidar da vida é plantar sem veneno, cozinhar juntas, ensinar às crianças a história de luta do povo, garantir o direito à moradia, à saúde e à cultura. O Bem Viver se expressa quando o alimento é fruto do trabalho coletivo, quando ninguém passa fome, quando a terra cura e quando a luta se faz com alegria, com roda de coco, com ciranda, com celebração. É nessa reinvenção radical da vida, enraizada no chão e voltada para o comum, que floresce o Bem Viver.
Sustentar a vida em condições de adversidade é um dilema muito antigo para as mulheres negras. E foi a partir dessas experiências seminais de resistência que surgiram organizadas de criar Bem Viver como o próprio AMMA Psique e Negritude, Criola, Geledés, o Instituto Odara, entre tantas outras. Essas organizações não apenas denunciam o racismo, mas propõem formas de reorganizar o mundo. São espaços de formação política, de cuidado, de afirmação de uma outra ética.
Parte dessa perspectiva de luta, denúncia com a invenção de uma vida boa ganhou palco e forço a partir da Marcha das Mulheres Negras Brasileiras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, realizada no ano de 2015. Aquela multidão de mulheres negras formaram mais que uma marcha naquele ano, mas um acontecimento ético-político, um grito coletivo construído a muitas mãos, ao longo de anos, nos territórios, nos movimentos, nos encontros e nos afetos.
A marcha denunciava o genocídio da população negra, a violência contra as mulheres, a ausência de políticas públicas efetivas. Mas também afirmou um projeto de vida: por nós, por todas nós, e pelo Bem Viver. Marchamos para denunciar, mas também para afirmar que queremos viver, e viver bem.
A marcha ensinou o Brasil a escutar as mulheres negras. E é fundamental lembrar que essa escuta não é só sobre dor, é sobre proposta de futuro. Um futuro onde o cuidado, a ancestralidade e a liberdade estejam no centro. Ela também nos levou um horizonte: não aceitamos mais viver sob os termos da morte. Reivindicamos vida plena, digna e coletiva.
Há 15 anos, o Bem Viver pautado para e pelas mulheres negras ressoava alto. Essa marcha continua. Ela se renova nas redes de cuidado, nos protestos, nas rodas, nos estudos, nas partilhas. Ela segue em marcha. Em 2025, a marcha retorna às ruas e aos territórios, reafirmando o compromisso coletivo com o Bem Viver. No dia 25 de novembro, mulheres negras de todo o país atenderão ao chamado “Marchamos por reparação e pelo Bem Viver”, e ocuparão Brasília, mais uma vez.
No AMMA, aprendemos com a experiência que cuidar da saúde mental das pessoas negras é também cuidar da história, da identidade e das possibilidades de existir com dignidade. Entendemos que saúde mental não se reduz à ausência de sofrimento, mas passa pela capacidade de construir laços, narrativas, pertencimentos e projetos de vida.
As mulheres negras têm construído epistemologias do cuidado. O Bem Viver, para nós, é também um projeto terapêutico, um projeto de reumanização. Nos nossos espaços, nós conversamos, cantamos, escutamos, choramos e rimos.
As rodas de conversa, os círculos de escuta, os atendimentos clínicos com escuta racializada, os espaços de formação em psicologia com perspectiva negra, tudo isso compõe uma forma de fazer o resgate da saúde mental como direito coletivo. E isso é Bem Viver: quando o cuidado não está apartado da luta, mas faz parte dela.
Sabemos que nossas práticas desafiam o que é considerado legítimo no campo da saúde mental. Mas seguimos insistindo: o que cura é o que cria laço. É o que nos devolve a inteireza. É o que reconhece nossa humanidade. Para tanto, é urgente romper com as lógicas coloniais e patriarcais do cuidado.
O Bem Viver não é um destino, é um caminho coletivo. Um caminho onde todas as pessoas possam existir com dignidade, com autonomia, com cuidado. E é isso que as mulheres negras têm nos ensinado há séculos.
Se queremos mesmo construir o Bem Viver, precisamos escutar as vozes que historicamente foram silenciadas. Precisamos transformar não só o que fazemos, mas como pensamos. Precisamos aprender com quem já inventa o mundo de outras maneiras.
Lucinha Silva é psicóloga, psicanalista e co-fundadora do AMMA Psiquê e Negritude. Marcos Martins Amaral é psicólogo, doutor em Educação e coordenador no AMMA Psique e Negritude.