Por: Lucinha Silva e Marcos Martins Amaral
Vivemos um momento decisivo. Os ataques do Norte Global ao Sul Global se intensificam, seja por meio de bloqueios econômicos, pressões políticas e manipulação midiática, minando nossos processos de autonomia. Os golpes contra a democracia brasileira, as tentativas de deslegitimação da Venezuela e os impactos do neoliberalismo na Argentina não são episódios isolados: são manifestações contemporâneas da colonialidade do poder, como definida por Aníbal Quijano, que continua operando pela exploração, expropriação, criminalização e morte.
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Estamos diante de um modelo que não apenas explora nossos territórios e, portanto, nossas vidas, mas que também tenta capturar a própria subjetividade. Um projeto que nos quer individualizadas, adoecidas, desmobilizadas e incapazes de imaginar outras formas de vida.
O sofrimento psíquico que atravessa nossos povos não é desvinculado da história; ele é efeito de uma máquina colonial e capitalista que insiste em produzir desesperança. E é por isso que cuidar da saúde mental exige mais do que escuta individual: exige organização, memória, criatividade e enfrentamento.
A noção de Bem Viver emerge das cosmovisões andinas, afro-diaspóricas, originárias e quilombolas. Nos chega, por exemplo, pelo Sumak Kawsay, expressão em quéchua, língua ancestral dos povos originários do Equador e do Peru, que pode ser traduzida como “vida plena” ou “vida em harmonia”. E pelo Suma Qamaña, em aymara, falado por povos originários da Bolívia, do sul do Peru e do norte do Chile, que aponta para uma vida comunitária equilibrada, baseada na reciprocidade, no respeito à natureza e nos laços coletivos.
Todas elas são formas de pensar o mundo, de se relacionar com os outros seres e com o território. São projetos civilizatórios que resistem há séculos ao projeto colonial-capitalista.
Essas expressões, que nascem no seio de cosmovisões ancestrais, foram incorporadas como referência política nos processos constituintes do Equador (2008) e da Bolívia (2009), durante os governos progressistas de Rafael Correa e Evo Morales. Foram momentos importantes e também contraditórios de reconhecimento pelo Estado das lutas dos povos originários e de suas formas próprias de viver e organizar o mundo.
Contraditórios porque, mesmo diante da ofensiva do imperialismo e da colonialidade, foi possível, inclusive por meio do Estado, inscrever nos marcos jurídicos nacionais a força dessas resistências históricas.
O Bem Viver, assim, ganha densidade política: torna-se um horizonte alternativo ao modelo capitalista de desenvolvimento, e também uma crítica profunda à colonialidade do poder e do saber.
É também por essas sabedorias que aprendemos a cuidar da vida em meio à guerra social permanente imposta pelo colonialismo. É um projeto que nega a lógica da acumulação, da extração, da desigualdade, da cisão entre seres humanos e natureza.
No Peru, na Bolívia, no Equador, no Brasil, em Cuba, nas comunidades negras da Colômbia, no Haiti, nos feminismos comunitários da Guatemala e nos terreiros do Recôncavo baiano; há muitos caminhos possíveis de Bem Viver.
São lutas que passam, necessariamente, pela defesa da terra. Em toda a América Latina, são os povos indígenas, camponeses e quilombolas os que mais têm resistido à devastação provocada pelo agronegócio, pela mineração e pelas políticas extrativistas.

No Brasil, a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST – pela reforma agrária popular é uma das expressões mais vivas de Bem Viver em território: plantar, partilhar, educar, curar, tudo isso em oposição direta à lógica do latifúndio e do lucro.
No Peru e na Bolívia, as experiências de reforma agrária foram momentos marcantes de ruptura com a estrutura colonial do latifúndio. Na Bolívia, ainda em 1953, a Revolução Nacional instituiu uma reforma agrária profunda, com participação ativa de camponeses e povos indígenas, aliando redistribuição de terras à construção de instituições como o Instituto Nacional de Reforma Agrária ( INRA). No Peru, em 1969, a reforma liderada pelo governo de Velasco Alvarado rompeu com o domínio das grandes fazendas e organizou parte da produção em cooperativas agrícolas, num processo estatal amplo, mesmo atravessado por críticas à condução burocrática e à posterior desestruturação.
São experiências quemostraram que a luta pela terra pode se transformar em política de Estado quando os povos se organizam e pressionam. E que o Bem Viver também se planta e se cultiva na terra devolvida ao seu povo.
Não é possível falar em Bem Viver sem falar em soberania territorial e alimentar. Na Amazônia, os povos originários enfrentam diariamente a ameaça de grileiros, garimpeiros e projetos de morte impostos por interesses transnacionais. Em Cuba, a soberania nacional tem sido exercida também no campo da saúde e da educação, mesmo sob embargo e constantes sabotagens. No Equador, no México e na Colômbia, as mulheres indígenas e negras têm protagonizado processos de defesa do território como defesa da vida.
Aqui no Brasil, essa luta inclui a reivindicação e a demarcação dos territórios indígenas, direito garantido na Constituição de 1988 e ainda assim sistematicamente violado. A demarcação de terras é uma forma concreta de garantir o Bem Viver dos povos originários: é onde se preserva a cultura, se protege a floresta e se garante a soberania dos modos próprios de existir.
O Bem Viver é chão, é a possibilidade de existir em relação com o mundo sem ser devorado por ele.
Lucinha Silva é psicóloga, psicanalista e co-fundadora do AMMA Psiquê e Negritude. Marcos Martins Amaral é psicólogo, doutor em Educação e coordenador no AMMA Psique e Negritude.