“Trabalhamos para formar cidadãos conscientes, com autoestima fortalecida, senso crítico aguçado e motivados a lutar pela melhoria de suas condições e da sua comunidade, contribuindo também para o surgimento de novas lideranças”. É o que destaca Eduardo Pereira da Silva Neto, o Eduardo Odùdúwa, fundador da Biblioteca Comunitária Afro Abdias Nascimento.
Criada em 2008, a afroteca é um território de resistência, afeto e ancestralidade. Localizada no Subúrbio Ferroviário de Salvador (BA), foi a primeira biblioteca comunitária da periferia soteropolitana dedicada exclusivamente à cultura afro-brasileira e africana.
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Há mais de 15 anos, o espaço tem contribuído para garantir às crianças negras o direito à literatura que valorize sua identidade e ancestralidade — especialmente na primeira infância, fase decisiva para o desenvolvimento da autoestima, da consciência racial e do senso de pertencimento.
Aos 42 anos, Eduardo é Doutor Honoris Causa em Cultura Afro-brasileira e Africana, pedagogo em formação, professor de língua Yorubá, produtor cultural e arte-educador. Morador do Subúrbio, ele viu nascer ali mesmo a ideia da Afroteca.
“A proposta surgiu logo após a promulgação da Lei 10.639/03, quando percebemos que, mesmo com a obrigatoriedade do ensino da história e cultura africana nas escolas, os livros e materiais que tratavam do tema eram inacessíveis à maioria da população negra”, recorda.
Batizada com o nome do intelectual, político e ativista Abdias Nascimento, a biblioteca — primeira a usar o termo “Afroteca” no Brasil — surgiu para preencher essa lacuna histórica. Atualmente, o projeto alcança cerca de 3 mil pessoas por ano, por meio de visitações ao acervo fixo (200), ações itinerantes (1.500) e atividades como saraus, encontros e oficinas (cerca de 300 participantes).
A curadoria do acervo prioriza livros didáticos, paradidáticos, científicos e audiovisuais que abordam a história e cultura afro-brasileira e africana sob uma perspectiva antirracista. “Selecionamos conteúdos que estejam em sintonia com as leis 10.639 e 11.645 e que tragam protagonismo negro em diferentes áreas do saber”, detalha Eduardo.

Políticas públicas ampliam alcance das Afrotecas
Com base nos dados do Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que revelam que 55,5% da população brasileira se autodeclara negra — sendo 10,2% pretos e 45,3% pardos —, o governo federal tem reforçado políticas públicas voltadas à valorização da identidade racial e à promoção da equidade desde a infância.
Entre as ações recentes, destaca-se o apoio à expansão das Afrotecas, espaços educativos voltados à infância negra que promovem o acesso à leitura e à cultura antirracista.
O Ministério da Igualdade Racial (MIR) incentiva a criação desses ambientes em diversas regiões do país, reconhecendo seu papel estratégico na formação de crianças mais conscientes e orgulhosas de sua ancestralidade.
Em maio, duas novas unidades foram inauguradas no Pará, em parceria com a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa): a Afroteca Kiriku, em Belterra, e a unidade Bucala, em Santarém. O investimento destinado à iniciativa foi de aproximadamente R$ 700 mil, segundo o governo.
Essas iniciativas reúnem livros, brinquedos, jogos pedagógicos e instrumentos musicais que estimulam o pertencimento racial e valorizam as culturas negras, quilombolas, indígenas e afro-brasileiras.
Sem apoio institucional, Afroteca Abdias Nascimento enfrenta dificuldades
Mas a Biblioteca Comunitária Afro Abdias Nascimento segue sem apoio institucional ou governamental contínuo, enfrentando obstáculos financeiros e estruturais que colocam em risco sua permanência.
Mesmo com o recente fortalecimento de políticas públicas voltadas à valorização da cultura negra e ao combate ao racismo na infância, a unidade pioneira ainda não foi contemplada com recursos fixos.
Suas atividades se mantêm graças ao engajamento voluntário de educadores e à conquista eventual de editais públicos, muitas vezes insuficientes para cobrir demandas básicas como a manutenção do espaço, a aquisição de materiais e a oferta de oficinas.
Essa instabilidade compromete não apenas a continuidade das ações cotidianas, como também a possibilidade de ampliar o impacto que a biblioteca já exerce sobre a comunidade local.
Ao funcionar como um espaço de acolhimento, formação crítica e fortalecimento identitário para crianças negras, o espaço cumpre um papel social que vai além do incentivo à leitura — estabelece vínculos entre território, memória e projeto de futuro.
Literatura afrocentrada: espelho para a infância negra
A escritora, professora e especialista em Educação Infantil e Educação Antirracista, Bruna Cristina, destaca que a literatura com protagonismo negro exerce um papel fundamental no desenvolvimento das crianças negras nos primeiros anos de vida.
Segundo a especialista, “a literatura para a primeira infância é um espelho que não tivemos no passado — um espelho necessário para que as crianças negras se vejam, se reconheçam e se sintam representadas de forma positiva.”
Ainda de acordo com a professora, essa representação precoce fortalece a identidade, a autoestima e o sentimento de pertencimento, mostrando às crianças negras que suas histórias são motivo de orgulho e construção.
Bruna ressalta que o letramento racial, especialmente em espaços como as Afrotecas, amplia o diálogo sobre raça e pertencimento desde a infância. Ela explica que são “territórios de afeto, aprendizado e resistência onde se cultivam saberes ancestrais, histórias e memórias que foram silenciadas.”
Para a especialista, esses espaços possibilitam que as crianças aprendam a identificar o racismo, valorizem suas raízes e reconheçam a diversidade como uma força transformadora. Assim, o letramento racial forma sujeitos críticos e conscientes, capazes de questionar injustiças e transformar suas relações desde cedo.

Pontes entre ancestralidade, infância e comunidade
Para a educadora Bruna Cristina, os espaços são territórios de afirmação que rompem estereótipos e ampliam as possibilidades de imaginar e viver a infância negra.
“Uma biblioteca afrocentrada é uma força contra estereótipos e silenciamentos. Ela amplia o imaginário de todas as crianças, negras e não negras, mostrando novas formas de existir, criar e sonhar”, afirma.
A especialista ainda destaca que, ao oferecer representações positivas, esses espaços mostram às crianças negras que elas podem ser protagonistas de suas histórias — princesas, cientistas, exploradoras ou heroínas — e ensinam às crianças não negras o valor e a potência das narrativas negras.
“É um lugar onde a criança negra descobre que pode ser tudo o que quiser, e onde a criança não negra aprende a respeitar e valorizar essas histórias”, diz. Além disso, defende que espaços como esse rompem com currículos colonizados e plantam, desde cedo, sementes de equidade.
Infância negra como potência
Para a professora, a construção de um acervo afrocentrado para a primeira infância deve ser guiada por critérios pedagógicos e antirracistas: “É fundamental que as histórias tenham protagonismo negro, valorizem culturas africanas e afro-brasileiras e, sempre que possível, sejam escritas por autoras e autores negros.”
Segundo ela, as obras devem ser lúdicas, acessíveis e com ilustrações que expressem afetividade e representatividade — evitando a centralidade na dor e conectando-se com a vivência real das crianças.
Do ponto de vista político, um acervo afrocentrado deve dialogar diretamente com a Lei 10.639, integrando-se à prática cotidiana nas escolas e espaços comunitários. “Uma prática antirracista começa nos detalhes: no livro que se escolhe, na história que se conta, na infância que se cultiva e floresce”, afirma.
As afrotecas também cumprem um papel fundamental na articulação entre escola, família e território. Bruna ressalta que esses espaços criam laços de afeto e aprendizado coletivo, permitindo que famílias compartilhem memórias e histórias com as crianças.
A especialista conclui que essas iniciativas funcionam como verdadeiras pontes: entre passado e presente, entre escola e comunidade, entre história e futuro. “É um movimento Sankofa: de retorno às raízes para construir um futuro com mais pertencimento e consciência — não só para as crianças, mas também para as famílias.”