Crise climática ameaça aprendizado de crianças negras; saiba o que as escolas podem fazer

Especialista destaca que proteger as crianças, sobretudo as negras, da crise climática é também promover justiça social e racial, garantindo espaços seguros para aprender, brincar e se desenvolver
Uma menina desenhando.

Uma menina desenhando.

— Reprodução/Freepik

25 de outubro de 2025

O calor sufocante das cidades, as enchentes que destroem moradias e as secas que castigam plantações já fazem parte do cotidiano de milhares de crianças brasileiras. Esses eventos climáticos ameaçam o direito de aprender durante a infância, sobretudo para meninas e meninos negros que vivem em favelas e periferias.

Segundo o estudo “A primeira infância no centro do enfrentamento da crise climática”, publicado em junho de 2025 pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), crianças negras e indígenas são as mais afetadas por desastres naturais que aprofundam desigualdades históricas e restringem o acesso a serviços essenciais. 

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O estudo foi produzido por especialistas em saúde e infância, incluindo Alicia Matijasevich (USP), Gabriela Dominicci de Melo Casacio, Manuella Fantauzzi Franco e Marcia Castro (Harvard/NCPI).

Sem áreas verdes e sem proteção

O levantamento do NCPI mostra que 43,5% das escolas de educação infantil nas capitais não possuem áreas verdes, índice que sobe para 52,4% nas favelas e periferias. Para muitas crianças, a escola é o único contato com a natureza e a ausência desse espaço reduz oportunidades de brincar, socializar e aprender de forma saudável.

“Aulas interrompidas, prédios danificados e ondas de calor prejudicam a concentração e fragilizam a aprendizagem. Para muitas famílias, a escola é também o único espaço seguro”, afirma a professora Alicia Matijasevich, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista à Alma Preta.

O estudo revela ainda que, em 2024, cerca de 1,18 milhão de crianças e adolescentes tiveram aulas suspensas no país, principalmente por alagamentos. Para a docente, as escolas em territórios mais vulneráveis enfrentam maior risco a enchentes, secas e ondas de calor. 

“Essa combinação compromete o desenvolvimento físico, cognitivo e socioemocional, recaindo de forma desproporcional sobre crianças negras — um quadro de racismo ambiental”, alerta.

Alunos no Centro Educacional Unificado Capão Redondo, em São Paulo. Foto: Reprodução/ONG Formigas-de-Embaúba

Educação infantil como espaço de resiliência

Muitas escolas brasileiras ainda funcionam em prédios precários, sem ventilação adequada, sombra ou áreas externas. Essa realidade impacta de forma mais intensa crianças negras, que vivem em territórios expostos a ondas de calor, enchentes e outros eventos climáticos extremos.

Alicia Matijasevich destaca que medidas como climatização e ventilação das salas, plantio de árvores, criação de jardins de chuva, instalação de pisos permeáveis e sistemas de drenagem são fundamentais para proteger a saúde infantil.

Pátios arborizados e seguros contribuem não apenas para o bem-estar físico, mas também para o desenvolvimento emocional das crianças. Espaços bem planejados ajudam a tornar a escola um ambiente mais acolhedor e estimulante, fundamental para o aprendizado e a socialização na primeira infância.

“Ao transformar as escolas em ambientes preparados para ondas de calor, enchentes e outros eventos extremos, o poder público garante a proteção das crianças e fortalece seu direito a aprender e se desenvolver em espaços seguros e acolhedores”, afirma.

Para a docente, essas adaptações são mais urgentes em favelas e periferias, onde o impacto da crise climática se combina às desigualdades sociais históricas. A falta de infraestrutura adequada agrava os riscos e limita o acesso das crianças a espaços seguros e saudáveis para brincar e aprender.

“Proteger crianças que crescem em territórios vulnerabilizados não é apenas uma questão ambiental, mas de justiça social e racial. Só com ações integradas será possível garantir ambientes saudáveis e propícios ao desenvolvimento integral”, argumenta.

Práticas pedagógicas que conectam crianças à natureza

A educação infantil pode preparar as crianças para compreender e lidar com a crise climática sem as sobrecarregá-las emocionalmente. “Em vez de transmitir medo ou culpa, as práticas pedagógicas devem promover experiências lúdicas e positivas, conectando as crianças à natureza e fortalecendo seu senso de pertencimento ao meio ambiente”, explica.

Entre as estratégias estão o cultivo de hortas comunitárias, brincadeiras em espaços verdes, contação de histórias com personagens ligados à proteção da natureza e projetos que incentivem pequenas ações sustentáveis no dia a dia. 

Ainda de acordo com Matijasevich, valorizar os saberes e vivências das crianças negras, que muitas vezes já enfrentam enchentes, poluição e ausência de áreas verdes, fortalece a identidade, o pertencimento e a autoestima.

Segundo a pesquisadora, para que essas práticas cheguem às comunidades mais vulneráveis, é preciso o apoio de políticas públicas consistentes e intersetoriais, integrando educação, saúde, assistência social e planejamento urbano.

“Quando os setores caminham juntos, criam-se respostas mais completas, capazes de proteger o desenvolvimento infantil e reduzir desigualdades raciais diante da crise climática”, completa. 

Crianças têm contato com plantas na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Professora Esther Bandeira Gomes, no bairro da Sacramenta, em Belém. Foto: Reprodução/Agência Pará 

Políticas intersetoriais para proteger crianças negras

Proteger a primeira infância, sobretudo a negra, exige priorizar investimentos em creches e pré-escolas de periferias, garantir acesso à saúde e à alimentação, criar espaços verdes e incluir a perspectiva racial no planejamento urbano e ambiental. 

“Mais do que proteger o presente, essas ações garantem que todas as crianças cresçam em ambientes saudáveis, seguros e estimulantes”, pontua. 

Na área da educação infantil, entre as medidas sugeridas pelo NCPIestão:

  • Adaptação de prédios escolares com climatização, ventilação, sombra e jardins de chuva;
  • Criação de áreas verdes e pátios seguros;
  • Fortalecimento da atenção primária à saúde, com vigilância de doenças associadas a calor e enchentes;
  • Ampliação do acesso à saúde mental infantil e à segurança alimentar;
  • Inclusão de conteúdos sobre mudanças climáticas e práticas sustentáveis nos currículos.

Outra recomendação é desenvolver atividades lúdicas e materiais didáticos acessíveis, que considerem a diversidade cultural do país e ajudem os pequenos a compreender as mudanças climáticas.

O estudo também destaca a importância de capacitar professores e cuidadores para atuarem como multiplicadores de práticas sustentáveis no ambiente escolar. Além disso, recomenda elaborar protocolos que garantam a continuidade do atendimento em creches e pré-escolas imediatamente após desastres climáticos.

De acordo com a pesquisa, essas estratégias são essenciais para a infância ser protegida frente aos impactos da crise climática e para as crianças poderem ter oportunidades de desenvolvimento pleno mesmo em contextos adversos.

Segundo Alicia Matijasevich, proteger a primeira infância exige políticas públicas consistentes e intersetoriais. Melhorias na infraestrutura escolar devem caminhar junto a políticas de habitação, saneamento, segurança alimentar e atenção à saúde.

“Quando educação, saúde, assistência social e planejamento urbano caminham juntos, criam-se respostas mais completas, capazes de proteger o desenvolvimento infantil e reduzir desigualdades raciais diante da crise climática”, finaliza a pesquisadora.

Este conteúdo faz parte de uma parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.

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  • Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Com experiência em revisão, edição, reportagem, primeira infância e jornalismo independente. Tem trabalhos publicados no UOL (TAB, VivaBem, ECOA e UOL Notícias), Agência Pública, Ponte Jornalismo, Estadão e Yahoo.

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