Por que a primeira infância precisa estar no centro da COP30?

As crianças pequenas na Amazônia enfrentam insegurança, doenças e vulnerabilidade física, problemas agravados pelo desmatamento e pela falta de água potável
Uma catadora de lixo venezuelana e seu bebê são vistos em um aterro sanitário em Pacaraima, estado de Roraima, Brasil, na fronteira com a Venezuela, em 28 de fevereiro de 2019.

Uma catadora de lixo venezuelana e seu bebê são vistos em um aterro sanitário em Pacaraima, estado de Roraima, Brasil, na fronteira com a Venezuela, em 28 de fevereiro de 2019.

— Nelson Almeida/AFP

8 de novembro de 2025

O impacto das mudanças climáticas já é uma realidade para milhões de crianças no Brasil. Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), cerca de 40 milhões de crianças e adolescentes no país sofrem com os efeitos da crise, a exemplo da insegurança alimentar, falta de água potável, doenças respiratórias e desastres naturais. 

Os bebês e as crianças com até seis anos são os mais vulneráveis, por estarem em uma fase crítica de desenvolvimento físico e emocional. Com a 30ª Conferência das Nações Unidas (COP30), em Belém (PA), se aproximando, cresce a urgência de incluir a primeira infância nas pautas climáticas globais. 

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

A região amazônica é formada por nove estados — Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins — e abriga milhares de crianças indígenas, quilombolas e ribeirinhas.

A área está entre as mais impactadas pelas mudanças no clima e pelo desmatamento, o que reforça a necessidade de políticas públicas que articulem justiça ambiental, proteção territorial e cuidado com a infância.

Segundo o estudo “A primeira infância no centro do enfrentamento da crise climática”, publicado em junho de 2025 pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), as crianças negras e indígenas são as mais afetadas, já que eventos extremos ampliam desigualdades estruturais presentes desde a gestação até a vida adulta. 

A crise climática não cria novas vulnerabilidades, mas intensifica barreiras no acesso a serviços básicos, expondo meninas e meninos negros a maiores riscos de adoecimento, insegurança e traumas duradouros.

Ainda de acordo com a pesquisa, nos últimos 20 anos, o número de eventos climáticos extremos no Brasil triplicou. Em escala global, estudos indicam que crianças nascidas em 2020 deverão enfrentar quase sete vezes mais ondas de calor do que aquelas que vieram ao mundo em 1960, revelando a dimensão do impacto geracional da crise climática.

Entre os fenômenos mais comuns estão secas prolongadas, erosão do solo, chuvas intensas e enchentes. Um exemplo recente ocorreu em 2024, quando inundações atingiram 478 municípios do Rio Grande do Sul e exigiram respostas emergenciais de grande porte.

As consequências da crise também se refletem na economia e na saúde. Estima-se que os prejuízos globais alcancem US$ 38 trilhões por ano até 2050 — valor seis vezes superior ao necessário para limitar o aquecimento a 2 °C. 

O relatório foi produzido por pesquisadoras e especialistas em saúde e infância, incluindo Alicia Matijasevich (USP), Gabriela Dominicci de Melo Casacio, Manuella Fantauzzi Franco e Marcia Castro (Harvard/NCPI). 

Uma mulher segura uma criança em uma casa alagada no bairro de Sarandi, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, em 3 de maio de 2024. Foto: Anselmo Cunha/AFP

Por que as crianças pequenas devem estar no centro da COP30?

A CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Mariana Luz, defende que a primeira infância deve estar no centro das negociações da COP30. “As crianças na primeira infância, de 0 a 6 anos, são as mais afetadas, mas são também as menos culpadas pela crise climática. É uma conta injusta, que não fecha”.

Segundo Luz, os pequenos dependem inteiramente de fatores básicos como ambientes seguros, água potável, ar limpo, alimentação adequada e condições de moradia estáveis — todos já ameaçados pelas mudanças do clima. 

A CEO alerta ainda que, em países de renda média e baixa, como o Brasil, o cenário é ainda mais grave, já que secas, enchentes, calor extremo e contaminação da água comprometem diretamente a saúde, a nutrição e o desenvolvimento. 

Luz enfatiza ainda que esses impactos recaem justamente sobre um período de intensa formação cerebral e corporal, em que o estresse tóxico e as doenças podem deixar marcas permanentes. 

Nesse sentido, dar prioridade à infância nas discussões climáticas “significa reconhecer que aquelas que contribuem quase nada para o problema são as que pagam o preço mais alto, e que só haverá justiça climática se houver justiça para a infância desde o começo da vida”.

Vista aérea de crianças caminhando em um banco de areia do Rio Madeira, na comunidade de Paraizinho, em Humaita, estado do Amazonas, norte do Brasil, em 7 de setembro de 2024. Foto: Michael Dantas/AFP

Oportunidade e responsabilidade globais

Realizar a COP30 na Amazônia é, segundo Mariana Luz, “uma oportunidade de mostrar ao mundo que não se trata apenas de preservar árvores ou conter emissões, mas de proteger a vida e o futuro de milhares de crianças pequenas que crescem em territórios de alta vulnerabilidade”.

Em sua avaliação, essas crianças estão na linha de frente da crise climática, sofrendo com insegurança alimentar decorrente da perda de biodiversidade e da contaminação da água, enfrentando maior incidência de doenças respiratórias e infecciosas ligadas ao desmatamento e às queimadas, além de viverem sob risco de deslocamentos forçados.

A CEO ressalta ainda que o evento traz uma responsabilidade proporcional ao seu alcance, já que as decisões tomadas em Belém vão impactar diretamente a qualidade de vida e o desenvolvimento das novas gerações amazônicas. 

Para Luz, colocar a primeira infância no centro das negociações é reconhecer que o destino da floresta e de sua população mais jovem está profundamente conectado à capacidade do mundo de enfrentar a crise climática com justiça social. 

“A COP30 pode, portanto, ser o marco em que líderes globais assumem que cuidar da floresta e das comunidades que nela vivem significa, antes de tudo, garantir às crianças amazônicas o direito de crescer saudáveis, seguras e com perspectivas de futuro”, acrescenta. 

Políticas urgentes para proteger a infância

Proteger a primeira infância diante da emergência climática exige um conjunto integrado de ações que envolvem saúde, proteção social, educação e infraestrutura. Para Luz, “é urgente fortalecer os sistemas de vigilância e resposta a emergências, com planos de evacuação e protocolos que considerem as necessidades específicas de bebês, gestantes e cuidadores”.

Ela destaca ainda que os serviços essenciais — como vacinação, atenção materno-infantil, programas de nutrição, abastecimento seguro de água e saneamento — precisam estar preparados para funcionar mesmo em contextos de desastre. 

Segundo a gestora, “não se trata apenas de conter danos, mas de assegurar que a proteção da infância não seja interrompida nos momentos mais críticos”. Outro ponto central, é a proteção social. 

“Transferências de renda contínuas e mecanismos de apoio em crises climáticas podem evitar que famílias com crianças pequenas caiam em situação de fome ou privações extremas” enfatiza. 

No campo da educação, de acordo com Luz, a recomendação é que creches e pré-escolas sejam planejadas com resiliência climática, garantindo cuidado e segurança mesmo diante de eventos extremos.

A CEO pontua ainda que políticas de habitação e saneamento em territórios vulneráveis, aliadas ao reconhecimento das práticas tradicionais de manejo ambiental das comunidades indígenas e ribeirinhas, são fundamentais para reduzir riscos. “Garantir ambientes saudáveis e seguros desde os primeiros anos de vida é um compromisso inadiável”.

Ruana Azevedo, 31, e sua filha se refrescam com um ventilador colocado em sua sala em meio a uma onda de calor no bairro de Guaratiba, Rio de Janeiro, Brasil, em 17 de fevereiro de 2025. Foto: Tercio Teixeira/AFP

Qual a mensagem para os líderes globais?

Para a CEO, a justiça climática só se concretiza quando considera os mais vulneráveis: os bebês e crianças pequenas. Ela afirma que “não existe justiça climática se continuarmos a negligenciar aqueles que menos contribuíram para a crise e mais sofrem com seus efeitos”. 

Segundo Luz, cada onda de calor extremo, enchente ou perda de alimento impacta diretamente corpos em desenvolvimento, cérebros em formação e futuros em risco.

A executiva enfatiza que garantir justiça climática significa assegurar que todas as crianças tenham o direito de crescer saudáveis, seguras e com oportunidades, independentemente do lugar em que nasceram. 

Além disso, ressalta ainda que proteger a primeira infância vai além de uma questão humanitária, se trata de uma estratégia essencial de adaptação às mudanças climáticas e de promoção do desenvolvimento sustentável.

“Se falharmos com as crianças hoje, falharemos com toda a humanidade amanhã. Cada política, cada investimento, cada decisão global precisa considerar que a primeira infância está no centro da justiça climática. Proteger nossas crianças é a forma mais inteligente de proteger o futuro do planeta”, finaliza. 

Este conteúdo faz parte de uma parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Com experiência em revisão, edição, reportagem, primeira infância e jornalismo independente. Tem trabalhos publicados no UOL (TAB, VivaBem, ECOA e UOL Notícias), Agência Pública, Ponte Jornalismo, Estadão e Yahoo.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques