O Rio Grande do Sul abriga 7.685 famílias quilombolas, somando cerca de 24 mil pessoas distribuídas em 67 municípios. Desse total, 6.512 famílias vivem em áreas rurais e 1.173 estão em áreas urbanas. Apesar de um histórico marcado pelo apagamento da presença negra no estado, esses números evidenciam a resistência do povo negro gaúcho e das comunidades quilombolas.
Nesse contexto, foi criada a “Rota da Liberdade”, o primeiro percurso de afroturismo em territórios quilombolas no Rio Grande do Sul que visa resgatar a história, fortalecer o protagonismo e valorizar as comunidades quilombolas do estado.
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O projeto de Lei 276 de 2024 de autoria da deputada estadual Laura Sito (PT) propõe o roteiro pelo litoral gaúcho, passando por Osório à Santa Vitória do Palmar, Capivari do Sul, Palmares do Sul, Mostardas, Tavares, São José do Norte e chegando até Rio Grande.
Em entrevista, a deputada destacou o contexto que deu origem à iniciativa pela promoção do turismo antirracista e sustentável. “Essa é mais uma ação na perspectiva de revisitar a história do Rio Grande do Sul, olhar para o passado, o presente e prospectar o futuro. É reafirmar a presença negra e valorizar a produção das comunidades quilombolas”, afirmou.
A Rota da Liberdade surgiu também em resposta a desafios climáticos enfrentados pelo estado, como estiagens e a crise ambiental.
“Em um contexto de resistência climática, já víamos os impactos da estiagem. A ideia era pensar em uma alternativa de desenvolvimento econômico e preservação cultural que também defendesse o território, hoje ameaçado, já que as comunidades são alvo de constantes disputas com o agronegócio. O turismo tem crescido muito, também é uma forma de gerar renda e proteger o meio ambiente”, explicou Sito.
O trajeto une preservação ambiental, valorização cultural e fortalecimento econômico. Também destaca a biodiversidade local, e apresenta aos visitantes os saberes ancestrais, com destaque para a gastronomia negra, música, dança e artesanato.
“A rota vai ser estruturada e gerida em parceria com as próprias comunidades. É a questão do turismo sustentável, todo esse cotidiano valoriza aquilo que já é feito nas comunidades tradicionais e potencializado através do turismo”, contou.
Patrimônio e significado histórico
A escolha do trajeto tem forte significado histórico. A região que compreende a rota tem uma alta concentração de população negra gaúcha, que possui 146 quilombos identificados no estado, reflexo do passado escravocrata e das rotas de tráfico negreiro que cruzavam essa parte do estado.
“Essas comunidades representam 38% das quilombolas identificadas no Rio Grande do Sul, e estão localizadas ao longo da Rota da Liberdade, que vai do litoral norte ao litoral sul. Isso por si só já é um dado muito significativo, pois reforça o quanto essa região está marcada pela história da escravidão e também pela resistência negra.”, destaca.
Assim, a iniciativa também pretende atuar como uma forma de reparação histórica, ao reconhecer o trajeto como Patrimônio Cultural Imaterial do estado.
Segundo a Fundação Cultural Palmares (FCP), 130 comunidades quilombolas já foram certificadas no estado, sendo 113 localizadas em zonas rurais (87%) e 17 em áreas urbanas.

Rota impulsiona economia e educação
Além do reconhecimento simbólico, a proposta busca impulsionar as atividades econômicas locais, educacionais e a promoção da segurança alimentar nas comunidades quilombolas. A deputada destacou o potencial da rota para valorizar a produção local.
“Hoje, a produção quilombola no Rio Grande do Sul é muito diversa. Produzimos hortaliças, frutas, milho, feijão, aves, suínos. Também temos manufaturas, como pães, geleias e conservas. O afroturismo, esse turismo comunitário, vai nos permitir ampliar a visibilidade do que é produzido e gerar mais renda para as comunidades”, explicou.
Na educação, ainda ressalta movimentos já existentes. Um exemplo é o Quilombo Costa da Lagoa, que integra o roteiro e desenvolve a iniciativa “Quilombola nas Escolas”, voltada à aproximação entre as comunidades quilombolas e os ambientes escolares.
A ação leva informações sobre a cultura, a história e o cotidiano quilombola às salas de aula, promovendo educação antirracista e valorização da identidade negra.