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‘Revisitar a história’: proposta apresenta 1° percurso gaúcho de afroturismo quilombola

Em entrevista, a deputada estadual Laura Sito (PT) destacou o contexto histórico de reparação e valorização das comunidades quilombolas com a criação da Rota da Liberdade, que percorre territórios tradicionais no Rio Grande do Sul
Imagem da região Primeira Rota de Afroturismo do Rio Grande do Sul.

Imagem da região Primeira Rota de Afroturismo do Rio Grande do Sul.

— Reprodução/Nathália Schneider

4 de outubro de 2025

O Rio Grande do Sul abriga 7.685 famílias quilombolas, somando cerca de 24 mil pessoas distribuídas em 67 municípios. Desse total, 6.512 famílias vivem em áreas rurais e 1.173 estão em áreas urbanas.  Apesar de um histórico marcado pelo apagamento da presença negra no estado, esses números evidenciam a resistência do povo negro gaúcho e das comunidades quilombolas.

Nesse contexto, foi criada a “Rota da Liberdade”, o primeiro percurso de afroturismo em territórios quilombolas no Rio Grande do Sul que visa resgatar a história, fortalecer o protagonismo e valorizar as comunidades quilombolas do estado. 

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O projeto de Lei 276 de 2024 de autoria da deputada estadual Laura Sito (PT) propõe o   roteiro pelo litoral gaúcho, passando  por Osório à Santa Vitória do Palmar, Capivari do Sul, Palmares do Sul, Mostardas, Tavares, São José do Norte e chegando até Rio Grande.

Em entrevista, a deputada destacou o contexto que deu origem à iniciativa pela promoção do turismo antirracista e sustentável. “Essa é mais uma ação na perspectiva de revisitar a história do Rio Grande do Sul, olhar para o passado, o presente e prospectar o futuro. É reafirmar a presença negra e valorizar a produção das comunidades quilombolas”, afirmou.

A Rota da Liberdade surgiu também em resposta a desafios climáticos enfrentados pelo estado, como estiagens e a crise ambiental.

“Em um contexto de resistência climática, já víamos os impactos da estiagem. A ideia era pensar em uma alternativa de desenvolvimento econômico e preservação cultural que também defendesse o território, hoje ameaçado, já que as comunidades são alvo de constantes disputas com o agronegócio. O turismo tem crescido muito, também é uma forma de gerar renda e proteger o meio ambiente”, explicou Sito. 

O trajeto une preservação ambiental, valorização cultural e fortalecimento econômico. Também destaca a biodiversidade local, e apresenta aos visitantes os saberes ancestrais, com destaque para a gastronomia negra, música, dança e artesanato.

“A rota vai ser estruturada e gerida em parceria com as próprias comunidades. É a questão do turismo sustentável, todo esse cotidiano valoriza aquilo que já é feito nas comunidades tradicionais e potencializado através do turismo”, contou.

Patrimônio e significado histórico

A escolha do trajeto tem forte significado histórico. A região que compreende a rota tem uma alta concentração de população negra gaúcha, que possui 146 quilombos identificados no estado, reflexo do passado escravocrata e das rotas de tráfico negreiro que cruzavam essa parte do estado.

“Essas comunidades representam 38% das quilombolas identificadas no Rio Grande do Sul, e estão localizadas ao longo da Rota da Liberdade, que vai do litoral norte ao litoral sul. Isso por si só já é um dado muito significativo, pois reforça o quanto essa região está marcada pela história da escravidão e também pela resistência negra.”, destaca.

Assim, a iniciativa também pretende atuar como uma forma de reparação histórica, ao reconhecer o trajeto como Patrimônio Cultural Imaterial do estado. 

Segundo a Fundação Cultural Palmares (FCP), 130 comunidades quilombolas já foram certificadas no estado, sendo 113 localizadas em zonas rurais (87%) e 17 em áreas urbanas.

Casa no meio do percurso da Rota da Liberdade no Rio Grande Do Sul . (Foto: Reprodução/Nathália Schneider)

Rota impulsiona economia e educação

Além do reconhecimento simbólico, a proposta busca impulsionar as atividades econômicas locais, educacionais e a promoção da segurança alimentar nas comunidades quilombolas. A deputada destacou o potencial da rota para valorizar a produção local.

“Hoje, a produção quilombola no Rio Grande do Sul é muito diversa. Produzimos hortaliças, frutas, milho, feijão, aves, suínos. Também temos manufaturas, como pães, geleias e conservas. O afroturismo, esse turismo comunitário, vai nos permitir ampliar a visibilidade do que é produzido e gerar mais renda para as comunidades”, explicou.

Na educação, ainda ressalta movimentos já existentes. Um exemplo é o Quilombo Costa da Lagoa, que integra o roteiro e desenvolve a iniciativa “Quilombola nas Escolas”, voltada à aproximação entre as comunidades quilombolas e os ambientes escolares. 

A ação leva informações sobre a cultura, a história e o cotidiano quilombola às salas de aula, promovendo educação antirracista e valorização da identidade negra.

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  • Thayná Santana

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