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Correm, mas não comandam: porque o racismo estrutural ainda mantém negros fora do poder no esporte

O racismo no esporte é o mesmo racismo que estrutura o mundo fora dele. A diferença é que, no esporte, ele aparece sob os holofotes, disfarçado de meritocracia
O atacante do Botafogo, Luiz Henrique, e o atacante do São Paulo, William, brigam pela bola durante a partida de futebol do Brasileirão Série A entre Botafogo e São Paulo, no estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de Janeiro, Brasil, em 8 de dezembro de 2024

O atacante do Botafogo, Luiz Henrique, e o atacante do São Paulo, William, brigam pela bola durante a partida de futebol do Brasileirão Série A entre Botafogo e São Paulo, no estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de Janeiro, Brasil, em 8 de dezembro de 2024.

— Mauro Pimentel/AFP

25 de outubro de 2025

A National Football League (NFL) é uma liga em que os donos majoritários dos times são homens brancos bilionários. Os clubes são passados de geração em geração, o que pode trazer resquícios culturais prejudiciais, ainda mais potencializados pelo momento político atual do país. Hoje, cerca de 70% dos jogadores da NFL são negros, e esse número vai reduzindo quando se fala em cargos de comissão técnica, gerência, presidência e propriedade.

Já tivemos dono de time dizendo: “Se os jogadores negros não gostam daqui, devem voltar para a África e ver o quanto é ruim.” Isso mostra o quanto o racismo segue vivo nas estruturas do esporte. Na minha opinião, é apenas um reflexo da sociedade.

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O mesmo acontece no Brasil. O racismo estrutural está escancarado para quem quiser ver quando, na Série A do Brasileirão, hoje não há nenhum treinador negro. Roger Machado era o único e foi demitido. Valoriza-se o jovem treinador branco e não se contrata o jovem treinador negro, sob o argumento de que ele ainda não é “experiente o suficiente”. Quando se olha para esportes como tênis, golfe e polo, em que atletas negros são exceção, já é possível perceber como o racismo se manifesta em modalidades que exigem mais investimento para a prática. O acesso também é um marcador racial.

Ainda persiste a ideia de que negros são força física e brancos são estratégia. Essa herança da escravidão é um dos pilares do racismo no esporte. Não existe justificativa fisiológica para isso. O exemplo da natação deixa isso claro: por muito tempo se dizia que negros não nadavam bem porque tinham mais massa magra ou ossos diferentes, quando na verdade o problema é o acesso. Piscinas estão concentradas em áreas ricas, e consequentemente brancas. Pais que não sabem nadar não ensinam seus filhos. Isso vira um problema cultural e estrutural que se repete por gerações. O problema nunca foi biológico, é social.

A mídia esportiva também reforça essa desigualdade. Durante muito tempo, eram negros jogando e exclusivamente pessoas brancas narrando e comentando. Isso tem mudado, mas devagar. A atriz Viola Davis tem uma frase que sempre cito: “Você precisa ver uma manifestação física do seu sonho.”

Quando eu estou comentando, outras pessoas podem se ver em mim e pensar que também podem chegar. Quando a transmissão é exclusivamente branca e masculina, mulheres, negros e pessoas com deficiência nem consideram a possibilidade de ocupar aquele espaço.

Algumas ligas tentam mudar, mas de forma superficial. A NFL criou a Rooney Rule, que obriga os times a entrevistarem pelo menos um treinador negro quando o cargo estiver vago. Na prática, isso não funcionou. Times chamavam qualquer treinador preto apenas para “cumprir tabela”, enquanto já tinham outro (branco) praticamente fechado. As ligas e campeonatos precisam ser intencionais nessa questão, e os atletas também devem se posicionar, ainda durante a carreira, pensando no pós-carreira e na importância de ocupar espaços de poder.

Jahmyr Gibbs, do Detroit Lions, joga contra o Tampa Bay Buccaneers no Ford Field em 20 de outubro de 2025 em Detroit, Michigan. Gregory Shamus/Getty Images/AFP

No Brasil, o racismo estrutural também se manifesta no acesso à formação. O preço para tirar a licença de técnico da CBF é caro, e a exclusão já começa daí. Nos Estados Unidos, há muitos ex-jogadores que acumulam experiência em times e faculdades menores, mas mesmo assim não conseguem chegar ao cargo de treinador principal.

Em ambos os contextos, a resistência à mudança é grande. Quem manda é quem tem mais dinheiro e, em virtude de anos de desigualdade, quem tem mais dinheiro ainda é branco. Assim, o problema segue sendo ignorado. Na NFL, por ser uma liga fechada e com clubes pertencentes a famílias, talvez esse buraco seja ainda mais fundo. Durante anos, atletas negros foram barrados da posição de quarterback, considerada estratégica e de liderança.

O primeiro QB negro da NFL foi Willie Thrower, em 1953, mas a posição de liderança continuou sendo ocupada por brancos por décadas. Além do pensamento racista de que negros correm e brancos pensam, existia a ideia de que um homem negro não poderia exercer papel de comando.

Hoje, em 2025, a NFL iniciou a temporada com metade dos times tendo quarterbacks negros titulares. Mesmo assim, a diferença de tratamento continua. Lamar Jackson, do Baltimore Ravens, é um dos melhores lançando a bola, mas ainda é comparado a um running back por sua capacidade atlética. Na cabeça de muita gente, a posição de QB deve ser jogada como era pelos jogadores brancos dos anos 40 e 50. O fato de um homem negro conseguir correr e pensar ao mesmo tempo ainda é impensável para quem insiste em raciocinar como no século passado.

O racismo no esporte é o mesmo racismo que estrutura o mundo fora dele. A diferença é que, no esporte, ele aparece sob os holofotes, disfarçado de meritocracia. Enquanto o corpo preto for valorizado apenas pela força e continuar excluído da estratégia, da análise e do comando, o esporte seguirá sendo o espelho fiel de uma sociedade que ainda insiste em decidir quem tem o direito de pensar.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Bruno Sapo

    Bruno Sapo é comentarista da NFL Brasil, ex-atleta de futebol americano, treinador e criador do projeto Treino do Sapo (TDS), voltado à democratização do acesso ao esporte e à cultura do futebol americano no país. É uma das vozes negras mais ativas na discussão sobre racismo estrutural e representatividade no esporte, abordando temas como inclusão, performance e educação antirracista.

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