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Garimpeiros acusam seguranças de fornecedora da Tesla de tortura

Sem alternativas de trabalho, garimpeiros artesanais de Kolwezi relatam espancamentos e mordidas de cachorros em minas da KCC/Glencore.
Imagem gerada com auxílio de IA, a fim de não identificar os rostos originais.

Garimpeiros são agredidos e espancados por seguranças da KCC/Glencore, empresa que vende minérios para a Tesla.

— Imagem gerada com auxílio de IA, a fim de não identificar os rostos originais.

27 de março de 2026

Enviado especial a Kolwezi, na República Democrática do Congo.

“O que resta para o congolês é realmente morrer”, conta Prince, um jovem de 25 anos. Enquanto apresenta cicatrizes no rosto e nas pernas, ele acusa como responsáveis pelas agressões os seguranças da Kamoto Copper Company (KCC), uma produtora de cobre e cobalto com atuação na cidade de Kolwezi, no sudeste da República Democrática do Congo

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Outra vítima é Palmiers, garimpeiro na região há mais de 9 anos. Ele tem filhos e entra nas minas com sacos vazios em busca de cobalto e cobre.

“O real problema é que não existe trabalho aqui. Se você perceber aqui existem muitos jovens que não trabalham e que os pais trabalharam e ainda trabalham nas minas. A gente entra nas minas até determinada área, e se a gente vê os seguranças, a gente começa a correr”, conta.

Cobre retirado pelos congoleses de Kolwezi, um dos minerais mais procurados na cidade. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

Em 2019, Palmiers se deparou com um grupo de seguranças da KCC e conseguiu escapar, no primeiro momento, de uma agressão. Não conseguiu fugir, contudo, dos cachorros, que o alcançaram e atacaram.

Quando mordidos pelos cachorros ou mesmo agredidos, os garimpeiros têm a rotina de trabalho impactada.

Crise humanitária na RD Congo:

“Há dias em que você pode tentar entrar, e às vezes eles te encontram na cerca e você não atravessa. Você pode ficar até dois ou três dias sem trabalhar”, afirma Prince.

Pai de crianças, Prince conta que a imprevisibilidade no acesso às minas exige sabedoria no uso do dinheiro.

“Eu não posso pegar todo o dinheiro e gastar com comida. Eu preciso guardar e esperar os próximos dias. O dinheiro pode ajudar a esposa e os filhos”, explica.

Ele carrega cicatrizes no rosto e no calcanhar, marcas das duas agressões que sofreu. A primeira aconteceu depois de uma queda, quando fugia de seguranças, que o alcançaram e o espancaram. A outra foi uma mordida de cachorro no calcanhar, que o impede de correr.

Agressões acontecem na ‘capital mundial do cobalto’

Kolwezi é conhecida como a “capital mundial do cobalto” e concentra a maior parte desse minério na RDC. Segundo dados de 2025 do U.S. Geological, principal centro de dados minerais do mundo, a RDC concentra 54% das reservas desse minério do planeta.

Uma das minas de cobalto pertence à KCC, empresa que faz parte da suíça Glencore, um dos maiores conglomerados de mineração do mundo. Ele lidera a lista de denúncias de violações de direitos humanos e trabalhistas do relatório “Monitoramento de Minerais em Transição”, do Centro de Negócios e Direitos Humanos, que rastreia os impactos socioambientais da extração de minerais para a transição energética. O documento registrou 70 casos de abusos cometidos pela Glencore em todo o mundo entre 2010 e 2022.

Nas minas da KCC, cercadas por muros e repletas de seguranças, os garimpeiros artesanais de Kolwezi se arriscam na busca por 30 ou 40 quilos de minérios, a depender do trabalhador por dia. Com essa quantidade, os sacos são vendidos por valores que oscilam entre 150 mil ou 500 mil francos congoleses, equivalente a R$ 349 ou R$ 1.115, dinheiro que precisa ser dividido em duas ou três pessoas.

Palmiers, um desses garimpeiros, conta que os congoleses se arriscam nas minas da companhia por dois motivos: “Há um problema de trabalho aqui. Se você prestar atenção, os jovens não têm trabalho. E o outro problema é a fome. Quando se está faminto, você faz o que for preciso”, lamenta.

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A situação dos garimpeiros em Kolwezi piorou depois da suspensão das atividades mineiras artesanais. A medida foi tomada por um decreto do ministro de Minas do país, Louis Watum Kabamba, em 19 de dezembro de 2025. Sem o acesso às minas e sem regularização da atividade garimpeira, congoleses como Palmiers optam por se arriscar nas minas das empresas internacionais. 

Para resolver o problema, Kabamba prometeu a criação de 64 zonas na província de Lualaba, onde está Kolwezi, para permitir o trabalho aos congoleses que não estão empregados pelas multinacionais.

Garimpeiros congoleses são alvos de mordidas dos cachorros dos seguranças da KCC, mineradora multinacional com atuação em Kolwezi. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

Em nota para a Alma Preta, a Glencore afirmou que os seguranças contratados pela KCC são treinados em acordo com os direitos humanos, inclusive a partir dos valores das Nações Unidas. A empresa ainda disse ter um programa externo à empresa com operação em Kolwezi para avaliar a atuação da companhia no setor dos direitos humanos.

Segurança também teme ser agredido

A Alma Preta também conversou com um segurança, que afirma trabalhar há quatro anos nas minas da KCC em Kolwezi. De maneira anônima, o funcionário aceitou uma entrevista na sua casa, uma residência simples, mas mais bem equipada do que a média do bairro, com quatro cômodos, sofá, televisão, entre outros bens.

Ele tem como principal tarefa impedir a entrada de garimpeiros nas minas da KCC. Ele entende que seu trabalho é justo.

“Quando os garimpeiros dizem que querem acessar as minas para ‘trabalhar’, isso não é verdade, porque quando você acessa algo ilegalmente, você é um invasor”, explica. 

O segurança contou que existem dois tipos de garimpeiros que tentam acessar as minas da KCC. Um deles já chega com violência para procurar os minérios de qualquer modo. O segundo tipo chega com dinheiro para dar aos guardas e tentar comprar o acesso às minas. Independentemente da alternativa, a interação costuma ser tensa.

“Na maior parte dos casos, acaba em briga. Sempre termina em violência, e o guarda tem que chamar os colegas para ajudar”, conta. 

Em alguns momentos, contudo, não há o que fazer. Ele conta que, quando está em um grupo pequeno de guardas — como em duas ou três pessoas —, e se depara com 20 ou 30 garimpeiros, não há o que fazer a não ser aceitar o dinheiro e permitir a entrada.

“Eles vêm com o dinheiro e você sabe que eles vieram com a ideia de acessar as minas.e você não aceitar o dinheiro, vai terminar em violência”, afirma.

Apesar de trabalhar como segurança na mina, o agente de segurança conta ser comum encontrar nas ruas da cidade os garimpeiros. “Quando a gente se reencontra, é normal. Nós já até falamos, é normal, é como se nada tivesse acontecido. Quando estamos trabalhando, ai é diferente”, afirma.

O custo humano dos carros elétricos

A KCC é uma das fornecedoras de cobalto para a Tesla, uma das principais fabricantes de carros elétricos do mundo. Por conta das violações cometidas pela mineradora, a empresa de Elon Musk foi denunciada, no dia 19 de agosto de 2025, pelo grupo de advogados International Rights Advocates (IRA). Além de dono da Tesla, o empresário sul-africano é fundador da empresa Space X, companhia do ramo aeroespacial, e dono do X, antigo Twitter, uma das mais populares redes sociais do mundo.

“Anos de mineração em prol das empresas de tecnologia criaram um ‘ambiente de catástrofe’ na República Democrática do Congo. Empresas como a Tesla criaram avanços tecnológicos a custos dos direitos humanos da RDC, do meio ambiente e da saúde. O povo congolês não está dirigindo carros elétricos ou aproveitando um ambiente saudável. Ao invés disso, eles são penalizados por uma água poluída que os deixa mais doentes e pobres”, diz a denúncia.

A IRA se apresenta como um grupo de advogados sem fins lucrativos, baseados em Washington, e busca uma declaração judicial que qualifique a conduta da Tesla como ilegal, por entender que a empresa atua em desencontro com a legislação do distrito de Columbia, onde está baseada a capital dos EUA, e o código de conduta da própria companhia.

A Alma Preta perguntou à Tesla sobre os motivos para comprar minérios da Glencore na RDC, sobre sua posição diante das acusações feitas pela IRA e sobre as violências cometidas pelos seguranças da Glencore em Kolwezi. A Tesla não enviou nenhuma resposta até o momento.

A reportagem também questionou o Ministério de Minas do governo congolês sobre o suporte dado para os garimpeiros no país e como a administração pública age diante das agressões sofridas por cidadãos congoleses. Até o fechamento do texto, não houve retorno.

Os negócios da KCC (Glencore) e as projeções da Tesla

Apesar de todas as violações de direitos humanos pelas quais a Glencore é conhecida, a Tesla estabeleceu com a mineradora um contrato para a produção de 6 mil toneladas de cobalto por ano.

A Glencore, dona da KCC e da Mutanda Mining, outra mineradora da multinacional, contudo, não é a única fornecedora da Tesla denunciada pelo IRA. Acusações semelhantes recaíram sobre companhias de origem chinesa, como a Guizhou CNGR, a Hunan CNGR e a Huayou Cobalt (“Huayou”).

Os contratos são justificados pela maior demanda por carros elétricos no mercado internacional. Segundo a Benchmark Mineral Intelligence (BMI), em 2025, cerca de 20,7 milhões de carros elétricos foram vendidos, um aumento de 20% na comparação com o ano anterior.

A Europa registrou um crescimento de 33% na compra de automóveis elétricos, contra 17% na China, e 1% nos EUA. No Brasil, houve um aumento de 30% no emplacamento de carros elétricos na comparação com o ano anterior.

Para se proteger de críticas por violar direitos humanos e ambientais, a Tesla tem publicado as diretrizes da companhia, pontos utilizados pelo IRA para denunciar a empresa de Elon Musk. No texto da ação, a instituição apresenta como os comunicados oficiais da Tesla e a suas políticas afirmam que a empresa é responsável pela sua cadeia produtiva, inclusive sobre o fornecimento de minerais, com a garantia de relações de trabalho justas e de tratamento ético para seus trabalhadores, com uma dedicação para a proteção do meio ambiente e dos direitos humanos.

Bastidores da cobertura na RD Congo:

“A Tesla alega para os seus consumidores combater o trabalho forçado na sua cadeia produtiva, com a afirmação de que o ‘tratamento ético de todas as pessoas e o respeito dos direitos humanos é o coração da missão da Tesla de um futuro sustentável para todos’”, diz a denúncia.

Os advogados pedem que os consumidores tenham uma informação completa sobre a cadeia produtiva da Tesla e exigem mais transparência por parte da companhia.

“Ao contrário da ideia criada pela Tesla para os seus consumidores via representantes, as práticas de fornecimento da Tesla não correspondem a esses padrões. O fornecimento de cobalto é feito por companhias que cometem abusos de direitos humanos e estão baseados em trabalho forçado, destruição do meio ambiente, morte e mutilação de membros das comunidades locais e envolvimento em corrupção”, diz o texto.

Cenário da cidade de Kolwezi se caracteriza pelas minas e os aterros minerais. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

O resumo do escritório é de que a Tesla leva os consumidores a uma visão errada sobre os procedimentos da empresa.

“Um consumidor médio de D.C [capital dos EUA] ao se deparar com as peças da Tesla não poderia esperar que a rede de fornecedores da Tesla está conectada a um sistema de práticas injustas, como trabalho forçado, abusos de direitos humanos, ou danos ambientais. Ao propagandear que os seus veículos têm processos responsáveis e éticos, Tesla não dá aos consumidores motivo para questionar ou investigar as fontes subjacentes dos minerais críticos como o cobalto”, afirma o documento.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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