A EGBÉ – Mostra de Cinema Negro escolheu homenagear na 9ª edição a premiada cineasta, roteirista, produtora, pesquisadora e professora Lilian Solá Santiago, cuja trajetória articula cinema, memória e identidade afro-indígena no Brasil. O evento ocorrerá entre 11 e 18 de abril, em Aracaju (SE).
A homenagem integra a proposta da mostra de destacar a contribuição de mulheres negras para o audiovisual brasileiro e reconhecer trajetórias fundamentais para a formação do cinema negro no país.
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Cineasta, pesquisadora, professora e guardiã da memória, Lilian é dona de uma trajetória que ultrapassa a realização de filmes e alcança a formação, a preservação cultural e a produção de pensamento crítico sobre o audiovisual negro no país.
Os trabalhos da cineasta evidenciam histórias negras e estabelecem diálogos entre cinema, história, linguagem e artes cênicas, contribuindo para compreender a própria formação cultural brasileira. A filmografia de Lilian é marcada pela autonarrativa. Ao se inserir em seus projetos, ela acaba não só contando a sua história, mas também a de outras mulheres pretas com trajetórias semelhantes.
Em “Balé de Pé no Chão – A Dança Afro de Mercedes Baptista” (2005), Lilian registra a trajetória da bailarina considerada precursora da dança afro-brasileira, garantindo a permanência de sua voz e imagem para as gerações futuras. Já em “Eu Tenho a Palavra” (2010), investiga as origens africanas no Brasil por meio da linguística e da oralidade, aproximando Brasil e Angola e demonstrando como a memória também se preserva pela linguagem.
Pioneira no cinema negro brasileiro, Lilian foi a única mulher integrante do movimento Dogma Feijoada, surgido no final dos anos 1990, momento decisivo para a organização estética e política do cinema negro no país. Ainda assim, por anos, sua presença foi invisibilizada na história do audiovisual nacional.
A homenagem busca reparar esse apagamento histórico e, segundo a diretora da EGBÉ, Luciana Oliveira, também simboliza o reconhecimento de cineastas de diferentes regiões, funções e gerações que vêm transformando o cinema brasileiro e ampliando o debate sobre raça, gênero, classe e território.
“Quando uma mulher negra filma, ela carrega muita gente que veio antes, outras mulheres, homens, pessoas que pavimentaram a sua chegada no presente. Quando anunciamos que iremos homenagear Lilian Solá Santiago em uma edição que celebra ‘a contribuição das mulheres negras no cinema brasileiro’, estamos também lembrando que de ponta a ponta do Brasil muitas de nós estão construindo o cenário, em diferentes regiões, funções e idades. Gostaríamos de lembrar que a atuação dessas mulheres no cinema nacional em camadas independentes e no mercado, na prática e na produção teórica, está tensionando que o cinema seja repensado”.
Troféu Severo D’Acelino
Ao final da programação, a mostra concede à homenageada o Troféu Severo D’Acelino, honraria criada na primeira edição da EGBÉ, em 2016, destinada a reconhecer pessoas que contribuíram para a construção e o fortalecimento dos cinemas negros no Brasil.
A peça é uma obra de arte produzida pelo artista visual Antônio da Cruz e, diferentemente de premiações tradicionais, não possui caráter competitivo. O reconhecimento funciona como uma celebração coletiva das trajetórias que pavimentaram caminhos para novas gerações no audiovisual.
“Queremos marcar que a construção dos cinemas negros é coletiva e realizada por muitas mãos. Reconhecemos saberes, estratégias e dedicação de quem tornou possível a existência de um cinema plural, que visibiliza narrativas negras historicamente reprimidas e ainda hoje atravessadas por dificuldades de produção”, afirma Luciana.